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FACULDADE DE CIÊNCIAS DA SAÚDE

CURSO DE PSICOLOGIA

COMPREENDENDO A AUTO-ESTIMA NO
ENFOQUE DA GESTALT TERAPIA

MARIA LIDIA DE CARVALHO

Brasília
Novembro de 2007

MARIA LIDIA DE CARVALHO

COMPREENDENDO A AUTO-ESTIMA NO
ENFOQUE DA GESTALT TERAPIA

Monografia apresentada como parte dos
requisitos necessários para conclusão do
curso de graduação em Psicologia do
UniCEUB – Centro Universitário de Brasília.
Professora orientadora: Dra. Carlene Maria
Dias Tenório.

Brasília
Novembro de 2007

FACULDADE DE CIÊNCIAS DA SAÚDE
CURSO DE PSICOLOGIA

Esta monografia foi aprovada pela comissão
examinadora composta por:

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A Menção Final obtida foi:

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Brasília
Novembro de 2007

A todos que. descobrindo-se merecedores de um viver saudável e pleno. e assim. abandonando velhos e repetitivos padrões de comportamentos improdutivos. . permitindo o aparecimento de novas formas de crença e ação. tornaram-se eles mesmos. passaram a cuidar de sua auto-estima.

Aos meus sobrinhos por quem tenho muito carinho. . força moral conjugada com simplicidade e dignidade. Às minhas amigas Margarida e Celina pela dedicação. contribuíram para a realização deste trabalho. muito me ensinou ao produzir sua revolução silenciosa com sua sabedoria maternal. pelo apoio. Meu pai. Agradecimentos Ao Poder Superior. primeiramente. Aos colegas de trabalho. A todos aqueles que. professora e orientadora que. ajudou-me na elaboração deste trabalho que me possibilitou vislumbrar condições para libertar-me das teias que rompem o fluxo natural da vida em busca de um viver mais pleno. Às amigas que ganhei na faculdade. com todas as dificuldades. a minha gratidão e carinho especiais. com bondade. minha e de todos que me cercam. dos quais ganhei novos e valiosos ensinamentos. “paciência de Jó”. para que eu pudesse seguir em frente na caminhada que juntos iniciamos. Ao meu único filho. direta ou indiretamente. que novas e verdadeiras amizades são possíveis e necessárias. e guardarei carinhosas lembranças. que me aceitaram e que me ajudaram nos meus primeiros passos desta profissão. possibilitaram minha vinda a este mundo. cumplicidade e companheirismo com que me presenteiam desde que nos conhecemos. Aos meus irmãos e irmãs pelo que há de especial e único em cada um. muito lutaram para me oferecer apoio e suporte afetivo e espiritual. Ambos. Aos clientes. A todos professores e colegas com quem convivi na faculdade. com quem mais aprendi do que ensinei. pela amizade e colaboração ao longo do curso e por mostrar-me. que me ensinou a busca por um viver digno. amorosamente. A Carlene Maria Tenório Dias. “sabedoria de Salomão” e bom humor. Maria de Fátima dos Santos e Orides Alves da Fonseca. apoio. Aos meus pais que. amizade e torcida pelo sucesso deste novo caminho. im memoriam. Minha mãe. com competência. pela vida.

. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............. 18 2..................................... 16 2............................. A mudança do funcionamento psíquico no enfoque da Gestalt Terapia ..................................... 20 2................................................................................ O Self e o Eu no enfoque da Gestalt Terapia......................................................................2............... 6 1............ 1 DESENVOLVIMENTO 1................ O desenvolvimento da personalidade no enfoque da Gestalt Terapia.5 O Eu primário e os eus secundários ....................................................................................................................1 Conceituando a auto-estima............................................................ As funções do Self.................3 A interferência da auto-estima no comportamento... A construção da auto-estima no enfoque da Gestalt Terapia.................................................................... 25 3........ O Conceito e o Desenvolvimento da Auto-estima e Suas Interferências no Comportamento.............................. 3 1. 46 CONCLUSÃO ................................................................................................. 30 4.................. 55 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ....1 Conceituando o Self.............................. 3 1..............................................................................................4 O Eu e seu processo de desenvolvimento e integração.................. 59 ................................... 40 5.................... 13 2.....................................3 Definições e funções do Eu....................................................................2 O desenvolvimento da auto-estima................................ 22 2........................... 16 2..............................................

a abordagem gestáltica mostra como as necessidades da criança podem não ser atendidas e como. que na sua gênese é a forma como a pessoa se relaciona com ela mesma e com o mundo exterior. sem mastigar. experiências incompatíveis com as suas necessidades. na maioria das vezes passará a se ver como inadequada. quando a criança está sob total dependência de cuidados por parte dos adultos. eles resultam das interações sociais e ambientais. elementos tóxicos que vão contribuir para a alienação de partes importantes de sua personalidade. valendo menos que os demais. mal-me-quer. nada mais são que um emaranhado de bem-me-quer. que. é um conceito de grande abrangência na abordagem . O estudo do desenvolvimento da auto-estima. familiar e social. que o ajudarão na construção do conceito de si mesmo e de sua auto-imagem. além de contribuir para a formação distorcida do auto-conceito. inferior. se é aceito ou não pelo seu meio. respeitada e aprovada pelos outros. de como ele é recebido pelas pessoas de sua convivência e de como elas reagem diante de suas manifestações no ambiente. Introdução Nenhum ser humano traz consigo. A auto-estima é um sentimento de valoração oriundo de percepções do indivíduo. ela é obrigada a engolir. Se é rejeitada. bem-me-quer. grande ou pequeno. desenvolverá por si bons sentimentos. mas. A formação da auto-imagem depende das interações com o meio e de como os outros recebem e reagem às manifestações do indivíduo. Na opinião de Silva e Marinho (2003). ao nascer. no enfoque da Gestalt Terapia é a proposta deste trabalho e tem como base os conceitos delineados por esta abordagem que apontam como fator determinante da construção do auto-conceito individual a participação ambiental. qualquer conceito ou sentimento a seu respeito e muito menos idéias sobre bem ou mal. dificilmente terá um conceito positivo de si. o que pode resultar tanto em um conceito positivo como negativo de si mesmo. Se a criança é amada. constituem-se experiências de dores emocionais profundas. O conceito de contato. Nessa fase. mal-me-quer. não há geração espontânea de sentimentos. no decorrer de seu desenvolvimento. na maioria das vezes. especialmente os acontecimentos ocorridos nos primeiros anos de vida. consegue perceber se é amado ou não. Muitas vezes o indivíduo se depara com um mundo complexo em que os principais elementos. em pouco tempo. bom ou ruim. feio ou bonito.

Na conclusão. tanto na constituição como na manutenção da baixa auto-estima. esclarecendo como as experiências vividas no período desta estruturação tornam-se a base. portanto. situando seu nascimento ainda na infância. tanto para a alta. que enfatiza a influência dos pais ou cuidadores e o papel da auto- imagem idealizada e das interrupções de contato na formação da auto-estima. Mudar. é tornar-se quem se é. que descreve essencialmente o impacto da socialização sobre o indivíduo que. é o assunto do capítulo terceiro. para a Gestalt Terapia. que também descrevem a sua estruturação. são. O segundo capítulo define os conceitos e mostra como se estruturam o Self e o Eu no enfoque da Gestalt Terapia. 2 gestáltica. e o quinto capítulo tem sua ênfase na premissa e na idéia de que a mudança é uma escolha pessoal que envolve prescindir do apoio ambiental em favor do auto-apoio. a compreensão da baixa auto-estima é tratada numa visão ampla. em sua fase de dependência total. objetos de estudo deste capítulo. as interrupções de contato. podem se tornar a base do sentimento de baixa auto-estima. principalmente a introjeção. entrelaçada com os conceitos da Gestalt Terapia que permitem a compreensão de sua formação e como a pessoa poderá superar sua baixa auto-estima e prosseguir transformando-se para um viver saudável e pleno. . de acordo com os pressupostos da Gestalt Terapia. Os mecanismos presentes. pode ser obrigado a abafar todo o seu potencial. como para a baixa estima por si mesmo. O desenvolvimento da personalidade. Para esta abordagem. O quarto capítulo trata da construção da auto-estima exclusivamente sob o ponto de vista da Gestalt Terapia. No primeiro capítulo. na medida em que impossibilita o indivíduo de ter um contato saudável com o meio externo que impede as realizações e o bem estar do mesmo. o sentimento de auto-estima é definido por estudiosos do assunto.

. contribuindo significativamente para a formação de um auto-conceito negativo. principalmente a baixa auto-estima e suas implicações nas relações do indivíduo com os outros e com ele mesmo. porém. bem como os aspectos referentes ao desenvolvimento da personalidade segundo esta abordagem. o propósito desse trabalho foi abordar a questão da baixa auto-estima no enfoque da Gestalt Terapia. mas também no modo como a pessoa vivencia seu dia a dia e suas relações com o meio. com repercussões por toda a vida do indivíduo e que o caminho da reconstrução da auto-estima envolve elementos básicos como cognição. não só na formação da personalidade. Foi possível concluir também que experiências desqualificadoras. a partir de uma leitura crítica de vários autores. emoção e ação. com base nas experiências vividas em seu contexto familiar e social. Antes. o conceito e o desenvolvimento da auto-estima foram abordados. Resumo O presente trabalho foi desenvolvido com o objetivo de compreender o conceito e a construção da auto-estima. Além disso. Para isto foram estudados os conceitos de Self e eu. promovem a introjeção de mensagens tóxicas a respeito de si mesmo. com o objetivo de compreender como este sentimento interfere. os quais o ajudarão a alcançar sua totalidade. a partir dos pressupostos da abordagem gestáltica. vivenciadas na infância como verdadeiros impasses existenciais. permitiu a compreensão de que a baixa auto-estima apresenta subprodutos que diminuem a disposição para fazer contatos não interrompidos. A conclusão apresentada pela autora mostra que a auto-estima é um sentimento e uma imagem construídos pela própria pessoa a respeito de si mesma. promovendo ou dificultando a sua auto-realização A reflexão teórica sobre a construção da baixa auto-estima.

Assim. como um sentimento de valor decorrente da percepção que o indivíduo tem de si mesmo. Outro aspecto crítico que empobrece a vida dos indivíduos com baixa auto-estima é a dificuldade de lidar com criticas e elogios. Para Sheehan (2005). e como é possível observar. É formada pela autoconsciência que emerge de nós mesmos resultante de nossas experiências sociais.1 Conceituando a auto-estima.12). ambos os dicionários mantêm o mesmo sentido do termo. o sinônimo de auto-estima é apreço. pessoas com este sentimento freqüentemente encontram-se . O termo auto-estima é bastante conhecido e utilizado na linguagem cotidiana e na psicologia. 18). É por essa idéia relacionada ao sentimento de consideração por si mesmo. a auto-estima pode ser analisada por meio da escala de valores que nos atribuímos. assim “passamos a nos enxergar como as pessoas nos enxergam”. (p. 3 1. Além disso a autora salienta que este sentimento torna as pessoas excessivamente cautelosas e hesitantes diante da vida. Já no Dicionário da Academia de Letras de Lisboa (2001). o medo do fracasso não lhes permite correr riscos. que este trabalho será direcionado. O Conceito e o Desenvolvimento da Auto-estima e suas Interferências no Comportamento 1. Na busca de uma definição precisa encontra-se em Ferreira (1999) registrado o seguinte sinônimo: valorização de si próprio e amor próprio. ao passo que auto-estima é a percepção que ela tem do seu próprio valor” (p. A auto-estima é definida por Moysés (2001). Diz a autora: “Formou- se assim um certo consenso de que o autoconceito é a percepção que a pessoa tem de si mesma. A autora associa o conceito de auto-estima com o de autoconceito devido a uma certa semelhança e dependência entre os dois. consideração que uma pessoa tem por si própria.

que não depende de habilidade especial e nem de conhecimentos específicos. se ela se auto-recrimina ou se suas atitudes não demonstram segurança em si mesma. Origina-se de todas as idéias. que a baixa auto-estima está relacionada aos grandes problemas psicológicos como: medo de intimidade ou de sucesso. falta de realização na . e este por sua vez. sensações e experiências que reunimos a respeito de nós mesmos durante a vida” (p. Ainda segundo Clemes (1995). é possível saber como está sua auto-estima. No parecer de Clemes (1995-b). 4 numa posição desvantajosa: “como desaprovam seu próprio comportamento. produz a baixa auto-estima. 15). A autora enfatiza que ao se observar o comportamento apresentado pela criança.90).) a sensação de que somos competentes ao lidar com os desafios da vida e somos merecedores de felicidade. Esse autor considera a auto-estima como um dos sentimentos mais profundos que os indivíduos podem ter sobre eles mesmos.) de todos os julgamentos pelos quais passamos na vida. acham difícil aceitar elogios e são sensíveis às críticas dos outros” (p. a auto-estima pode ser comparada a uma espécie muito particular de sensação que engloba aspectos pessoais de competência e merecimento: (. Nosso conceito próprio tende a ser nosso destino (p. Segundo Branden (1997). Nesse ponto é importante observar a presença de um certo movimento circular: uma baixa auto-estima produz baixo rendimento escolar. é grande a influência do autovalor no processo de aprendizagem: “a auto-estima está diretamente relacionada com a quantidade de comportamentos criativos que expressam...” (p. Considera também. (..21).. Da auto-estima dependerá o relacionamento do indivíduo consigo mesmo. nenhum é mais importante do que aquele que fazemos sobre nós mesmos. é sinal de baixa auto-estima. “A auto-estima é nosso senso de dignidade pessoal.47). com os outros e o aproveitamento escolar.

Segundo a autora. é considerado por ele como um importante “meio pelo qual” o individuo pode vir a resolver seus problemas atuais e outros que venham a surgir. agressão ao cônjuge. a auto-estima. não confiam em si e temem os desafios. Tais indivíduos anseiam por feedbacks positivos mas não se acham merecedores. 133). Não é o mesmo que individualismo egóico ou adoração de si. A liberdade ampla de expressão pessoal permite à pessoa fortalecer a relação sadia consigo mesma. Branden (2002) especifica as atitudes básicas que transparecem a baixa auto-estima: enquanto os indivíduos com a auto-estima elevada buscam novas fronteiras. ansiedade e depressão. fomentadoras da baixa auto-estima. A auto-admiração. O acesso a este sentimento. responsável pela nossa visão de mundo e das outras pessoas (p. reduz os níveis de ansiedade e. 5 escola e no trabalho. A auto-estima é vista por Perls (1973/1988) como um instrumento a ser utilizado no contexto terapêutico. constrói um temperamento intimamente mais seguro. o auto respeito. antes adormecido. suicídio ou crimes violentos. quando saudável. . A questão das crenças distorcidas.67). pedofilia. apoiado na serenidade. Balona (2003) amplia a significação do termo auto-estima ao estabelecer uma nítida diferenciação entre uma postura egóica e o verdadeiro sentimento de auto-estima: O termo auto-estima significa o senso inato de valor pessoal. o sentimento de competência e valor formam o auto-conceito positivo. fica evidente na fala de Scheehan: “os indivíduos com baixa auto-estima estão mais propensos a encarar as coisas pelo lado pessoal e considerar as atitudes dos outros como ataques” (p. abuso de álcool ou vício em drogas. conseqüentemente. aqueles com baixa auto-estima aspiram segurança.

as reações de alegria. próprios da criança: não ocorre automática e diretamente. Só então ocorrerá uma mescla do que é social com o que é do individual. ela mesma. bonitinha ou boba e feia. se aplaudir ou se recriminar diante de um sucesso ou insucesso. colhidas aqui e ali. a começar pelo contexto sócio-econômico e cultural. Tanto as opiniões alheias verbalizadas quanto as sutis. No caso de uma criança. que são extraídas de fatores externos e internos a ela mesma. aquilo que inicialmente era um processo interpessoal é apropriado e assimilado como seu. para se compreender como se dá a formação da auto-estima de uma criança. com o correr do tempo e a repetição de comportamentos em relação à criança. passando pelo grupo familiar e suas interações. pois esta já traz consigo marcas de sua individualidade. Desta forma. Trata-se de processo cognitivo. Para Moysés (2001). existe um princípio referente à construção e percepção do próprio valor. Então. A autora utiliza-se do pensamento de Vigostski para ajudar a esclarecer como se dá a formação dos conteúdos mentais. Como resultado vai. 6 1. Primeiro acontece uma interação dos conteúdos produzidos pela relação com o meio externo com os conteúdos já existentes na mente da criança. é importante o reconhecimento das variadas influências.2 O Desenvolvimento da auto-estima. vão sendo incorporados conceitos alheios à sua própria estrutura cognitiva. zangas. incentivos e aprovação ou aborrecimento. repreensões e desaprovação aos seus comportamentos são importantes para a formação de seu auto-conceito. ela necessita de informações sobre si mesma. e são essas marcas que vão determinar como se dará a internalização dos conteúdos psicológicos. De acordo com Moysés (2001). a autora chama a atenção para a problemática . Moysés (2001) comenta que criança geralmente ouve das pessoas do seu convívio que é boazinha. Nesse sentido. elogios. chegando até a organização de classe como grupo.

claras e consistentes para ter a certeza de que é amada e valorizada. Vale ressaltar que o oposto também é verdadeiro. trabalha com o conceito de “pessoas critério”. pela crueldade presente nas referências negativas de certas brincadeiras. não importando se a pessoa também demonstra amor. Na consideração positiva incondicional. A maioria das pessoas critério geralmente estabelece condições de merecimento. levando tudo ao pé da letra. está dividida em condicional e incondicional. que geralmente é com a mãe. como o próprio nome lembra. Se houver fracasso nessa tentativa de construção de laços afetivos. pode minar lenta e gradualmente a auto- estima do indivíduo. A qualidade dos relacionamentos é fator de grande importância. não há condições para o bebê . Neste sentido. Quanto mais saudáveis forem essas interações. pois é nessa época em que “são plantadas as sementes” da auto-estima. o que influencia negativamente seu autoconceito. São pessoas que fazem parte do convívio da criança e das quais ela precisa receber amor e consideração positiva incondicional. a tendência inicial de todo ser humano quando bebê é estar bem consigo e conviver com o mundo que lhe rodeia. A criança precisa receber mensagens diretas. Rogers. 7 sofrida pela criança em função dos relacionamentos de âmbito educacional. A criança introjetará as mensagens recebidas da pessoa que tiver o papel significativo em sua vida. possivelmente terá como resultado a eterna angústia com relação à rejeição ou abandono. (citado em Shultz e Shultz 2004). Esta consideração positiva. a qual. às quais a criança tem que corresponder para merecer sua consideração positiva. se quis implicar com ela de modo sério ou de brincadeira. ou por que teve um dia ruim. Sheehan (2005) lembra que a maneira de ser da criança. Daí a grande importância de um relacionamento nutritivo entre os cuidadores e o indivíduo em formação. portanto. Em sua opinião. mais resultará em sentimento positivo sobre si mesmo. sem dúvida tem grande peso na formação de autoconceitos e na percepção de si mesma.

um amigo. depois uma professora.. pela qual a pessoa depende da aprovação externa. esposa ou algum profissional de sucesso. Cukier (1998) refere-se ao encolhimento das percepções e das conseqüências dramáticas no processo de auto-atualização: “as aprendizagens e as decisões que as crianças tomam ao longo de sua vida. estressantes e desconfirmadoras. Rudio (2003) descreve várias pessoas que uma criança pode eleger como significativas ou pessoas-critério: em primeiro lugar.. a consideração positiva condicional produz efeitos similares à baixa auto-estima. mostram que o comportamento dos pais afeta a auto-imagem da criança: “pais que aceitavam seus filhos de modo incondicional (.) . os pais. noiva. caso a criança não as cumpra. continuamos a tê-la como significativa. 8 receber amor. não terá a aprovação desejada. Mais tarde isso é transferido para um namorado. que. Portanto. (citado em Shultz e Shultz 2002). são impostas várias condições para que a criança receba as aprovações de que necessita. Estudos de Rogers. ou pessoas critério. limitam as percepções das escolhas na vida adulta” (p.. como as crianças dependem da aprovação e do amor dos pais. (citado em Shultz e Shultz 2002). Sobre as escolhas inevitáveis na vida adulta. Comparativamente. muitas vezes..) Geralmente temos mais de uma pessoa critério e. Segundo esse autor. aprovação e esta é melhor representada pela figura materna. Já na consideração positiva condicional.. necessitamos dessas pessoas-critério e procuramo-las” (. Entende Rogers. por não sentir segurança. principalmente aquelas frente a situações traumáticas. “durante toda nossa vida. mesmo quando nos frustra a consideração esperada” (p. 40). não sentir confiança em si mesma e em suas ações diante das escolhas que a vida lhe impõe.321). ao buscá-los. elas podem desenvolver comportamentos direcionados para ganhar a afeição destes e assim. “aprendem a evitar outros comportamentos que poderiam ser pessoalmente satisfatórios. não agem de forma espontânea” (p.18).

A autora cita ainda fatores como a educação. começa a adquiri-la na relação com os pais. mantendo assim a sua auto-estima em nível muito baixo.330). A criança é essencialmente incompetente e carente. traumas. ao chegar à vida adulta poderá construir o hábito de se criticar impiedosamente diante da não obtenção de resultados almejados. violência sexual. Como exemplo. a atitude de insegurança dos pais em relação às suas próprias capacidades pessoais. . É um fator de grande influência. No caso de a criança conviver com o excesso de crítica vindo de um dos pais ou de ambos. é como se fosse transmitida diretamente. e fatos corriqueiros entre as variáveis representantes de desafios e ameaças à boa formação da auto-estima do indivíduo. Sheehan (2005) também ressalta a importância que tem a auto-estima dos pais na vida dos filhos. levando-a a não se sentir boa o bastante naquilo que faz. 9 tinham filhos com maior auto-estima e maior segurança emocional que pais que fracassavam em aceitar seus filhos e demonstravam comportamento autoritário” (p. proteção e alimento. pais de crianças com baixa auto-estima se mantinham muito distantes. num processo inconsciente. pode afetar a criança. construindo desde cedo a insegurança que também fará parte de sua vida adulta. os quais são responsáveis diretos pela sua sobrevivência e pelas primeiras oportunidades de contato social. depende absolutamente dos cuidados dos pais. tendo em vista o aprendizado da criança ocorrer com base na imitação do comportamento dos pais e terceiros. aparência física. Para Silva e Marinho (2003) o bebê ao nascer não traz consigo uma noção de eu. lento e progressivo. Estes estudos indicaram também que invariavelmente. maus-tratos. os quais irão suprir ou não suas carências de acolhimento. eram pouco ou nada afetuosos e freqüentemente propensos à punição como forma de educar. conseqüentemente trazendo para si mesma muitos prejuízos.

Clemes (1995) lembra. Já os reforçadores negativos. protegido. aqueles carregados de críticas e punições. as discriminações de todo tipo. aquelas que silenciam na alma. passando a se comportar e a sentir-se como tal. inadequada. geram sensações desagradáveis que farão com que a criança se sinta desprotegida. Silva e Marinho (2003) propõem: “os sentimentos são resultantes de acontecimentos ambientais. Para estes autores. Clemes (1995-b) defende. Tais experiências irão influenciar determinantemente na construção da alta ou da baixa auto- estima da pessoa e será decisiva em suas escolhas e atitudes perante a vida. com as quais a criança/jovem tem que conviver. que um importante contexto formador de baixa auto-estima é o contexto escolar. carente. As sensações agradáveis ou ruins. acontece por meio da interação com o ambiente e sempre dependerá do tipo de reforçadores: os positivos geram sensações agradáveis. descritas como sentimentos. Para Branden (1997). aceito. a construção da referência individual tanto negativa como positiva. é algo que vai se fixando em seu íntimo até o ponto em que ela mesma incorpora como seu. que a auto-estima da criança é influenciada pela auto-estima dos pais e professores. são respostas discriminativas das ações do ambiente sobre o organismo ou as conseqüências – reforçadoras ou aversivas – de algum comportamento” (p. que a reação emocional dos pais. também. influencia o comportamento da criança. oportunizando ao indivíduo sentir-se adequado. é inerente à natureza humana a capacidade de desenvolver uma auto-estima . oportunamente. Nesse sentido. 229). demonstram um ponto de vista confirmador do pensamento já explanado anteriormente e defendem a participação decisiva do familiar e social no desenvolvimento da auto-estima do indivíduo. Acompanhando o pensamento de Sheehan (2005). mesmo não expressada. 10 Sobre a origem dos sentimentos. não têm geração espontânea. A questão das inevitáveis brincadeiras de mau gosto recheadas de racismo vindas de seus colegas. das quais dependerá o seu sucesso ou insucesso.

as quais a criança se sente impossibilitada de dominar. devido a uma opinião negativa sobre si mesma. Presente nas crianças de tenra idade. que é formado quando a criança não consegue compensar seu sentimento de inferioridade. medo de nos expor. um sentimento relacionado ao seu tamanho físico. influenciando. um sentimento de inferioridade em relação aos adultos. já que temos a capacidade de pensar e essa é a nossa fonte básica de competência. nos quais seus participantes dão verdadeiras demonstrações de superação de suas dificuldades físicas. “Ser um ser humano significa sentir-se inferior” (idem. esse complexo de inferioridade equivale ao . É possível constatar a veracidade de tais afirmações. ela pode ter o seu desenvolvimento prejudicado. o sentimento de inferioridade seria uma força motivadora comum a todos e que levaria os seres humanos a lutarem por níveis mais altos de desenvolvimento. e às habilidades desenvolvidas por estes. Apesar disso. comparado ao tamanho dos adultos. inclusive. e que. em que predominam “o medo da realidade. a atual e crescente participação de pessoas portadoras de diversas deficiências físicas em jogos para-olímpicos. p. tendo como exemplo. Adler compreendia os sentimentos de inferioridade como a fonte de toda luta humana e para ele. Adler defende a idéia de que toda criança possui. (Schultz e Schultz 2002). devido a esse complexo. Comparativamente. Neste sentido. assimilação de mensagens negativas que vêm dos outros geralmente corrói esta capacidade e cria um campo para a baixa auto-estima. a sua vida adulta. este seria. independentemente do que ouve ou assimila de seus pais. inicialmente.77) . Adler fala também do complexo de inferioridade. Ele se refere também ao sentimento de inferioridade derivado de alguma deficiência física e o quanto essa situação pode gerar um enorme desejo de superação. o medo da humilhação e do fracasso e. naturalmente. às vezes. Diferentemente dos outros autores. 11 saudável. 118). das responsabilidades do sucesso” (p.

por não saber quem verdadeiramente é. os conceitos expressados por diversos autores concordam que o ser humano é social por excelência e que a força das interações sociais é um fator fundamental na formação do autoconceito. o que mais pese na constituição da personalidade de indivíduos. foram maltratados. ao contrário. em suas próprias habilidades. Neste caso. Relata que essas situações geram falta de confiança em si. potenciais causadores de isolamento. por ter confiança em si mesmo ou. que ao se tornarem adultos tendem a ser frios e duros: Os traços de crianças não-amadas em sua forma mais desenvolvida podem ser observados nos estudos das biografias de todos os grandes inimigos da humanidade. não podiam suportar ver os outros felizes. a única coisa que se destaca é que. e que estas pessoas tornam-se dependentes e auto-centradas (egocêntricas). Desenvolveram. assim. conseqüentemente. objeto deste trabalho. pp. de sua alta ou baixa auto-estima. se relacionará sempre de modo inseguro frente às necessidades de sua . tendo em vista sua formação acontecer pelas mesmas razões e causar os mesmos prejuízos. Assim. falta de interesse social e desenvolvimento de um estilo não-cooperativo em sociedade. 12 sentimento de baixa auto-estima. Adler valoriza a questão da interação social no desenvolvimento humano e cita ainda a inferioridade orgânica. provavelmente. se alicerça. uma pessoa que. p. Tal como os autores citados anteriormente. um indivíduo com alta capacidade de enfrentar obstáculos. 79/80). dureza de caráter. o que facilitaria a fuga de interações sociais. Adler diz ser. (Idem). como fatores prejudiciais. trarão limitações altamente prejudiciais ao curso vital do indivíduo. que a auto-estima se desenvolve. pois uma vez instalados. e. É nesse palco de interações diversas. formando. Sobre a falta de amor para com as crianças ou rejeição.34 em Fadimam 1940/1986. descrito por vários autores. a superproteção e a rejeição. quando crianças. qual sua real capacidade provedora. assim. inveja e ódio. (Adler 1964.

de estar “mal-arrumada” mesmo que esteja como os outros. constrói uma auto-imagem idealizada em um viver introjetivo e confluente. de um sentimento de menor valor. à inadequação frente a ambientes e pessoas não costumeiras. 1. Por ser o . São vários os significados da palavra vergonha encontrados em Ferreira (2000). devido à falta de confiança em si própria e no seu auto-valor. de se afirmar. próprios da pessoa que. ao encolhimento frente a toda figura de autoridade e por fim. acanhamento. baixa auto- estima e vergonha se relacionam por serem derivadas de um baixo auto-conceito. de uma sensação de inadequação proveniente da falta de autoconfiança e de merecimento ser amado e respeitado. com um sentimento de inadequação e uma grande insatisfação pessoal. Ambas. de apresentar-se diante dos outros. de se expor.3 A interferência da baixa auto-estima no comportamento A baixa auto-estima se faz acompanhar de mazelas que interferem no comportamento do indivíduo de diversos modos e uma delas é o jeito envergonhado de ser. ao sentir-se culpado. mas parece que não fez o suficiente. As dificuldades vividas pela pessoa que tem baixa auto-estima não são poucas e muitas vezes não fica claro se elas fazem o indivíduo sentir-se inferior. por não saber qual seu verdadeiro eu. ou se é o sentir-se inferior que leva ao medo de fazer feio/errar. ao ressentimento que impede relações mais autênticas. à vergonha de reivindicar. de sentimento penoso de desonra ou humilhação perante outrem. Mais precisamente a vergonha que a pessoa tem em se expressar. porque fez tudo o que podia pelos outros. tendo que conviver com uma eterna falta de confiança em suas próprias habilidades. à sensibilidade exagerada a críticas. 13 vida. mas importa para esse trabalho o sentido de timidez.

Experienciada como um sentimento misterioso e confuso no entender do autor. para o autor. a auto- estima aumenta. realizações nasce e cresce através das interações com as pessoas significativas do ambiente. inadequado. “todas as formas de amor não retribuídas trazem vergonha” (p. Yontef (1993/1998) relata que a vergonha provoca reações “emocionais e avaliativas negativas de si próprio.370). O mesmo autor ressalta que o sentimento de não ter direitos ou de não merecer amor. estúpida. A instalação da vergonha é descrita por Yontef (1993/1998) como um processo que. a exposição. As pessoas que sentem vergonha utilizam-se. segundo Yontef (1998). especialmente se inadequada ou ruim. para o que se é. de auto-acusações tais como: incompetente. humilhada e insuficiente. já que as reações à vergonha são sempre uma redução da auto-estima. que se traduz num sentimento de não estar apto para ser amado e merecer respeito. isto é. o sentimento predominante para a criança é de que ela não é um motivo de alegria para os pais. 14 subproduto da baixa auto-estima mais referido. fraca. Nesse .368). o sentido de vergonha está vinculado a uma idade anterior à da memória nítida. respeito. Desde o início. o abandono. o ritmo dos movimentos parentais. como se é e para com o que se faz” (p. sua base se encontra “nas vontades e experiências interpessoais mais precoces da criança e do bebê” (p. se infiltra por osmose e vem de todos os lados como os sons do quarto: “a expressão no rosto de um genitor.369). a vergonha se mistura com um sentimento de defeito ou inferioridade. Esta forma de autocrítica é encontrada em todas as pessoas envergonhadas e. como é tocada ou não” (p. Para este autor. principalmente pelos pais. desajeitada. tola. o som de sua voz. Yontef ressalta que à medida que a vergonha vai sendo terapeuticamente trabalhada. em ambiente propício. traz à tona uma energia afetiva intensa que é quase intolerável” (idem). ela é ao mesmo tempo intolerável: “para a pessoa dominada pela vergonha.371). é uma das fontes da formação da vergonha crônica. a autora se propôs a entender melhor como a vergonha influencia a experiência de vida dos indivíduos que a conhecem de perto.

Além disso. não se pede um ou outro favor. no impulso de se esconder. No dia a dia. a falta de reconhecimento por suas realizações como também as ridicularizações diante de outras pessoas. a vergonha se faz presente em vários momentos. a vergonha tem aparência. Pode ser expressa também por um encolhimento físico. não se interage sem medo. estar consciente de estar envergonhado. A relação da vergonha e a auto-imagem idealizada é muito estreita e por isso esta auto- imagem. no constrangimento. pela cabeça pendente e evitação do contato visual (Yontef 1993/1998). Como a origem da vergonha é pré- verbal. por exemplo. nas pessoas dominadas pela vergonha.12). não se aventura além do pequeno mundo pessoal. que limita as possibilidades de estabelecer contatos transformadores. Dessa forma. resulta em mais vergonha e a percepção de querer esconder é acompanhada de precisar esconder- se. o auto-valor decresce formando assim um círculo vicioso. dada uma dessas situações é experienciada como evidência de inferioridade. ela aparece na face enrubescida. Bradshaw (1988) em seu livro “Curando a Vergonha que Impede de Viver” faz um amplo estudo sobre a vergonha e concluiu que existe a vergonha saudável e a vergonha tóxica. por conta deste sentimento. não se fala da necessidade de companhia. por conta da vergonha. enfim. é muito rígida excluindo de seu repertório pessoal muitos comportamentos e experiências. esta última está presente em quase todas as áreas da vida da pessoa e exige o disfarce de um falso eu: “como sentimos que nosso eu é defeituoso e imperfeito. não se admite tentativas de auto-afirmação. o que alimenta ainda mais o sentimento de inadequação e incompetência. O autor considera que o ambiente em que se desenvolve este tipo de sentimento está carregado de uma das mais danosas formas de violência. assim. fica difícil definir o que seja este sentimento que leva o indivíduo a uma constante e penosa sensação de ser insuficiente. 15 contexto aparecem tanto a desconsideração pelas necessidades da criança. precisamos de um falso eu que não seja assim” (p. .

Perls. se constrói ou se desenvolve a partir dos contatos que estabelece com o meio. Hefferline e Goodman (1969/1997) resume esta forma de pensar: “o Self é a fronteira de contato em funcionamento. diz que o Self “é um sistema contínuo localizado não na fronteira. (Tenório 2003. que só é possível através do contato” (idem). Nesse contexto. de auto-regulação e de busca pela recuperação do equilíbrio no campo organismo/meio. isto é. Tobin (1982. o significado de Self não existe por si mesmo. 16 2. citado em Tenório 2003). dinâmico e variável. p. a função de estabelecer contatos confere as características que formam um sistema . por sua vez. de certa forma. Acontece também um ajustamento do Self às experiências vividas. No entendimento do primeiro grupo. dialógico. um segundo grupo defende o seu aspecto estrutural e invariável que se originaria antes do contato e manteria suas potencialidades inatas e essenciais.Self . sua atividade é formar figuras e fundos” (p. processual. a mesma pessoa que . o Self é relacional. O Self e o Eu no Enfoque da Gestalt Terapia 2. dessa forma. sem a relação com o meio. “o Self é o sistema de contato no campo organismo/meio”. mas no centro. “em um processo de ajustamento criativo.pelo qual o indivíduo se percebe como sendo ele mesmo e não uma outra pessoa. isto é. é como nós sentimos que somos. assim ele sempre varia de acordo com as necessidades do indivíduo e circunstâncias ambientais. as quais fundamentam e preservam sua individualidade e identidade (Tenório 2003). Enquanto alguns teóricos o definem como um sistema psíquico de caráter existencial. O Self estrutural é.06). 1 Conceituando o Self O conceito de Self é um ponto polêmico na Gestalt terapia. visto como um núcleo ou sistema central que não varia. 49).

em uma dimensão essencial e existencial. sempre na dependência da demanda. o Self sempre assume uma característica relacional. que se auto-regula a cada momento. neste ponto de vista.8).14). a autora enfatiza que o mesmo é potencialidade. afetiva. distinguir o indivíduo do meio e. o Self não pode ser considerado uma instância. Hefferline e Goodman (1969/1997) que pertencem ao primeiro grupo e considera o Self como resultado do funcionamento da fronteira de contato a qual serve para delimitar. Observa-se que esta definição de Self é bem mais abrangente. sente e age de maneira particular dentro de um contexto sócio-cultural específico (Tenório 2003 p. colocá-lo em contato com este meio. que determinam as características individuais do sujeito. 17 sempre fomos” (p. pois reúne os aspectos elaborados pelos teóricos da Gestalt Terapia e de outras abordagens psicoterápicas. Sua condição de fronteira do organismo faz com que . mas “um sistema cuja função é variável dependendo da necessidade organísmica e do meio no qual esse organismo busca sua satisfação” (p. Tenório (2003) explica que a identidade do Self é construída pela função personalidade a partir da integração.. sensorial e motora. Ampliando ainda mais a concepção de Self.. de natureza cognitiva. independentemente do funcionamento saudável ou neurótico.) organismo psíquico funcionando através de funções e processos conscientes e inconscientes. estrutural e processual. Para Kiyan (2001). Por isso. força integradora organísmica. organização e síntese de todas as experiências vividas na fronteira do contato no decorrer da vida. Tenório (2003) reúne as idéias dos dois primeiros grupos e refere-se ao Self como “uma totalidade organísmica de natureza psíquica e individual.11). o Self deixa de ser exclusivamente processual ou estrutural e passa a ser um (. No entanto. ao mesmo tempo. enquanto ser com subjetividade própria. que pensa.170). na medida em que. consciente e inconsciente” (p. A autora concorda com a posição assumida por Perls.

A autora explica que. Na função ego. no indivíduo. Estas funções ou aspectos apresentam características diretamente ligadas ao nível de consciência que a pessoa tem de si e do meio. citado em Kiyan 2001) propõe outra definição de Self.2 As funções do Self: A plasticidade do Self permite que ele assuma as funções de Ego.171). e Personalidade. tanto para assimilar como para rejeitar as situações que se apresentam. p. 2. pois o que requer atenção são as necessidades vitais. Latner (1985. com sua característica relacional. Id. o Self “organiza. Assim o Self. a necessidade de estar consciente é mínima. que permite nosso ajustamento criador” (p. por exemplo. 172). Ao tomar consciência. nosso modo de expressão individual em nosso contato com o meio (. e quando falamos de experiências não podemos deixar de pensar em percepção num sentido amplo” (idem). atendidas por atos automáticos. ocorrem deliberações por parte do indivíduo.127. 18 o mesmo seja o mediador na promoção dos ajustamentos criativos: “o self propicia e age como integrador de experiências. nessa função. integra e .. Diferentemente das funções Id e ego. a pessoa “deliberadamente manipula o ambiente contatando-o ou fugindo” (p. se apresenta de modo específico em cada um e se manifesta. cuja simplicidade é ressaltada por Kiyan: “O Self é nossa maneira particular de estarmos envolvidos em qualquer processo. a função Id que prevalece. na função personalidade o Self assume atitudes compatíveis com sua auto-imagem e evita aquelas que não são compatíveis. Quando é. pela sua maneira de ser e estar no mundo. conforme bem explica Kiyan (2001).) Ele é o agente de contato com o presente.. visando manter sua integridade (Tenório 2003).

25). ou seja. a principal função do Self” (p.15). promover sua auto regulação e seu desenvolvimento é. cuja unidade é preservada pela identificação com as vivências. no sentido de satisfazer suas necessidades. que corresponde à auto-imagem ou conceito do Self é a principal atividade da função personalidade. Ribeiro (2006) também refere-se à importância do papel de auto-regulação do Self e pondera que o mesmo pode ser visto como um macrossistema. O Self. A construção do Eu e da própria identidade. o que dependerá dos padrões ou atitudes utilizados para atuar no mundo. várias forças organísmicas físicas e psíquicas entram em interação para que a gestalt do momento seja completada e isto mobiliza todo o Self. cuja função primordial seria mesmo a auto-regulação. ao se fazer um contato. garantindo assim a manutenção de seu próprio senso de identidade (p. a qual poderá ser rígida ou flexível. 23).. 19 sintetiza todas as suas formas de atuação no campo em um único Eu que pensa. que pensa sente e age de maneira única e mais ou menos estável. Tenório (2003) resume assim a função personalidade do Self: (. que resulta na estruturação de um Eu. Nesta função. portanto. tem como função básica completar gestalten. Este processo de estruturação resulta na própria identidade. entendida aí como um processo ligado à experiência e sensações imediatas que sempre visa a homeostase ou equilíbrio. “Fazer contatos com o meio. satisfazer as necessidades que emergem na fronteira de contato.. de acordo com Tenório (2003). as experiências do Self vividas na relação com o meio são integradas e sintetizadas em um único todo coerente . que são compatíveis com seu auto conceito e pela alienação daquelas que são incompatíveis. sente e age de maneira coerente com seu próprio auto-conceito e auto-imagem” (p. A autora enfatiza que.) aquela que é responsável pela integração de todas as experiências significativas vividas no contato com o outro e consigo mesmo.

Na sua obra “O Ciclo do contato”. a imagem de si mesmo que emerge como figura. Está sempre a serviço do Self. incapaz ou impotente. Age. a configuração de um resultado disto corresponderá a uma auto-imagem negativa ou a uma baixa auto-estima. o eu é um sistema operador e produtor. O eu é corporal no sentido de que é através do . Desse modo. ou sem valor. Está a serviço do Self. é uma imagem negativa. entra em ação. o eu é experiência da figura em primeiro plano” (p. 169). 2. que segundo Tenório (2003). Ribeiro (1997) fala mais claramente dessa função de executor do eu: O eu é um executor do Self.. 20 significativo. configuração ou estrutura corresponde à noção que cada um tem de si mesmo a qual é fixada pelo Self como forma de preservação da própria identidade. 3 Definições e funções do Eu.” (p. A questão básica é compreender o processo de construção e permanência dessa auto-imagem. cuja forma. produz ações adequadas ou inadequadas. corresponde aos eus real e ideal.. Ribeiro (1994) dá uma das respostas disponíveis nas teorias: “Enquanto o Self é um sistema ligado ao sentir e ao experienciar. nas diversas situações em que o Eu comparece como sujeito. introjetado e não introjetado. Quando a pessoa vivencia experiências nas quais ela se percebe como sendo inferior. as experiências referentes ao si mesmo. Quando ele percebe o que o Self quer ou sente. Em Kiyan (2001) Perls indaga: “O que é eu ? Uma composição de introjetos? (conforme sugeriu Freud)? Uma coisa que o neurologista pode localizar no cérebro? O organizador das nossas ações? O capitão da minha alma? Nada disso. 18). quando são predominantemente marcadas por situações nas quais o Eu é vivido como algo indigno. que favorece o sentimento de baixa auto-estima.

segundo Polster e Polster (1993/2001). 21 corpo que ele se faz visível. o contato “me faz visível aos outros”. “nós somos o contato que fazemos”. Por sua vez. sensações.15).. Tenório (2004) fala que o Eu é uma unidade existencial que “representa a organização e integração dos aspectos e experiências contatadas pelo Self” (p. tanto que. 14).. p. Denominando estes limites de fronteiras do eu.26 em Ribeiro 1977. Visto como uma configuração psíquica dinâmica. O eu revela o Self (p. para ela. segundo Ribeiro (1977) esta abordagem está centrada no “conceito contato e na natureza das relações de contato da pessoa consigo mesma e com o mundo exterior” (p.20). sente e age de forma particular no campo organismo-meio.27) . O eu. O esclarecimento do conceito de Eu é dado pela autora que o descreve como a (. 26). estes autores o relacionam com o conceito de contato: “a fronteira do eu em uma pessoa é a fronteira daquilo em que. “o self só pode ser descoberto em contato” (Mc Leod p. 31). apresenta um senso de limitação entre ele e o outro. O contato é um conceito essencial para a Gestal Terapia. entre ele e algum objeto ou mesmo entre ele e algum aspecto novo dele próprio. emoções. o contato é permissível” (p. A rigidez ou flexibilidade dessas fronteiras influencia diretamente a maneira de ser da pessoa. revelando o centro das coisas. garantindo a manutenção da própria identidade (p. Entendido como um jeito de ser e uma forma própria de se expressar. o Eu estaria continuamente se reorganizando por meio dos contatos que estabelece com o ambiente e consigo mesmo. cuja auto-imagem se estrutura com base nas experiências vivenciadas na fronteira de contato e permanece de modo mais ou menos estável. o mediato da vontade.) consciência de si mesmo como individualidade existencial que pensa.

a cada situação. Isto acontece nas neuroses. na busca pela sua sobrevivência e crescimento. Diante de todas essas definições e explicações sobre as funções do Eu. falar de função ego do Self é o mesmo que falar da atuação do Eu. Hefferline e Goodman (1969/1997). Para a Gestalt Terapia. . Nas manifestações pessoais. Uma característica interessante do Eu é sua condição de parcialidade. quando. 4 O Eu e seu processo de desenvolvimento e integração. a inibição das sensações presentes. que é na verdade. que compõem os diferentes papéis assumidos pelo Eu em seu processo de adaptação ao meio e satisfação de suas necessidades. Tenório (2003) esclarece que o Self inclui todos os processos físicos e psíquicos. o ignorar das necessidades que emergem no aqui e agora. conscientes e inconscientes. em que a função de auto-regulação do Self é prejudicada. na medida em que. 2. segundo Perls. enquanto o eu inclui apenas os processos envolvidos nas experiências da fronteira de contato. já que revela muitas facetas do Self. Neste sentido. 22 Ressaltando que o Eu não representa a totalidade do Self. emergem aspectos diferentes do Self. fica claro que este se estrutura e atua no campo organismo-meio através da função ego do Self. em contraponto com a totalidade do Self. o desenvolvimento do Eu encontra-se diretamente ligado à necessidade organísmica mais importante que é a fome e segundo Tenório (2003) é por meio dela que o organismo se relaciona com o mundo nutriente. as funções ego do Self são perdidas ou enfraquecidas. esta condição o torna unitário em si mesmo. indispensáveis à manutenção do equilíbrio no campo organismo- meio. pode ocorrer o desequilíbrio. sejam interações consigo mesmo ou com os outros. mas ao mesmo tempo múltiplo.

o pré-dental ou amamentação. o meio pode apresentar resistências às necessidades dela e à sua natural agressividade oral. (p. a fome da criança se manifesta ativamente. a agressividade oral é quem propicia o crescimento e a integração do eu. a transformação e assimilação dos estímulos externos. com preferências alimentares e mastigação completa desde que ela possa recusar o que não lhe agrada. o desenvolvimento saudável de uma personalidade passa por estágios que podem ser relacionados com o nascimento dos dentes. feita pela evitação do contato ou interrupção deste”. Cada estágio apresenta características que vão exigir da criança um progressivo envolvimento de suas próprias capacidades. verifica-se que. diferentes momentos em que ela passa da recepção passiva de alimentos líquidos para enfrentar os novos desafios do consumo de alimentos sólidos. Perls (idem) dividiu este processo em estágios. Entre os 6-18 meses a criança já pode morder e tentar obter do meio o que necessita. os quais só serão devidamente assimilados se forem devidamente mastigados. ou seja. para a Gestalt Terapia. e não de uma resistência neurótica. Para maior compreensão. pois é ela quem opera a seleção. “na principal representação biológica de uma resistência oral saudável feita pelo contato ou pela agressão. Ao passar para a fase molar. Tenório (2003) apresenta os problemas que podem aparecer nos estágios nomeados por Perls: no pré-dental pode ocorrer incoerência entre necessidade e desejo de satisfação. O problema nessa fase é a desconfirmação da . 23 Perls (em Tenório 2003) denomina de agressividade oral a forma utilizada pelo organismo para interagir com essa necessidade básica. O emprego correto dos dentes corresponde para Perls (idem). o pré- natal ou fome indiferenciada. o mesmo que não diferenciação entre necessidade e desejo de satisfação. 36). Nesse sentido. No seu entender. que vai dos 18 aos 36 meses. exemplificado na situação comum da criança querer água e a mãe dar comida. o incisivo ou o morder e o molar ou mastigação. mas também aí ela pode não ser atendida.

No senso comum agressividade tem um sentido exclusivamente negativo de ataque ou de defesa exacerbados. Considerando a agressividade como um processo cuja finalidade é regular as relações de pessoas ou coisas diferentes entre si. 24 individualidade da criança pela inibição do ato de agredir. permanece como um corpo estranho dentro do organismo. de morder. na verdade é um fator de estruturação da personalidade humana e na sua ausência instala-se o medo.59). A auto-regulação organísmica fica comprometida já que algo é engolido contra a vontade ou necessidade da pessoa. Ribeiro (2006) a define como um “instinto a favor da vida que mora em cada um de nós”. a desesperança e a baixa auto-estima: “adoecemos quando usamos mal o instinto da agressividade”. O eu que se constitui sobre material introjetado agradável e assimilável tem a seu favor a possibilidade real de um desenvolvimento saudável ao passo que introjetos tóxicos são elementos que levam a conflitos internos. à alienação da verdadeira essência da pessoa. tanto o físico como o psicológico. externamente sua atuação se dá em forma de respostas adequadas “aos estímulos que vêm de fora e possam ser ameaçadores ao equilíbrio da pessoa” (p. que atua internamente levando o organismo a atualizar-se a todo momento. O autor reitera que falar de agressividade não é o mesmo que referir-se a uma pessoa agressiva. Ampliar o entendimento do que vem a ser a agressividade e o seu papel na vida dos indivíduos é de grande utilidade por desmistificar o uso de um instinto vital e abrir perspectivas para uma vida mais plena. A forma de resistência denominada introjeção é o processo pelo qual o alimento. não é mastigado e como não pode ser assimilado. Ribeiro (2006) explica e dá ao termo agressividade sua real dimensão. este adoecimento se traduz em sintomas pelo não . com profundas distorções no auto-conceito. Isto é. neste caso.

isto é. Portanto. introjetado. o eu é a forma pela qual o self emerge na fronteira de contato e atua no campo organismo-meio. isto é. quando o eu é formado a partir de experiências organísmicas. esse Eu estruturado é considerado primário. 25 atendimento das necessidades pessoais e pela repressão da raiva contida. no sentido de promover sua adaptação e seu ajustamento criativo à realidade do aqui e agora. O resultado da organização e integração de todas estas experiências ou de todos esses eus situacionais ou secundários é a construção de uma estrutura ou conceito de Eu que pode estar baseado em experiências de significação organísmica ou em experiências. . se o Eu tem sua estrutura composta por experiências com significação não organismica. ele é considerado secundário. foram distorcidos pela interferência do outro considerado indispensável à sobrevivência do indivíduo. de acordo com cada experiência vivenciada no presente dentro deste campo. para o organismo. O primeiro tipo é aquele que é vivido no presente. cujo valor e significado. não introjetado. manifestando-se e atuando na fronteira organismo-meio de acordo com as circunstâncias desse campo e assumindo um papel que é requisitado pela situação. Por outro lado. para Tenório (2003). pode ter como base (ou fundo) o Eu primário ou um Eu secundário. enquanto estrutura ou conceito de si mesmo.5 O Eu primário e os eus secundários Como foi dito anteriormente. Desse modo. pode estar em consonância ou dissonância com as necessidades e características inerentes ao organismo. no entanto. transformando-se em doenças. O segundo tipo corresponde a um Eu introjetado estruturado com base em experiências cuja significação para o organismo foi imposta pelas conseqüências externas. 2. ou seja. Este eu secundário. existem dois tipos de eu secundário.

ou seja. ao mesmo tempo que criam também uma noção de mundo. o qual passa a ser dominado. vários são os eus secundários que derivam de um Eu primário ou original e eles podem ser externalizados e internalizados – os internalizados são aqueles construídos a partir da introjeção das relações vividas com os outros no mundo externo. o Self é representado por eus externalizados ou manifestados na fronteira organismo-meio como máscaras do “Eu primário”.27). esse eu torna-se incompatível com o Eu primário. que dão um sentido de Eu para o Self. tanto o eu quanto o mundo são criados e recriados a partir da relação entre eles” (p. São esses contatos e o conseqüente processo de integração e organização das experiências vividas. em situações também diferentes” (p. 26 Tenório (2003) descreve como se dá a manifestação variada do Eu primário na fronteira do contato. tem a característica móvel e dinâmica. Segundo a mesma autora. Desse modo. Quando a atuação e o conceito de Eu estão baseados e refletem aspectos introjetados que não foram integrados à totalidade do Self. Para Tenório (2003). são introjetados valores. Nessa tentativa de adaptação ao meio. atuando como um dominador introjetado. cada “eu secundário” assume um papel específico que. que sabota e anula o eu primário. Nessa fronteira “o Eu primário atua e se mostra de várias formas.26). são derivações do “eu primário” e são criadas como formas do indivíduo se adaptar e ou se integrar ao seu contexto ambiental e que podem estar ou não de acordo com o Eu primário. que são resultantes da relação da criança com pais . como por exemplo. devido a sua contínua reorganização através dos contatos estabelecidos com o meio. ou não introjetado. segundo a autora. o Eu. cada uma delas representada por um ‘eu secundário’ diferente. que são tomados para si e são vivenciados como se fossem próprios do Self. “Dessa forma. enquanto configuração psíquica do Self. o eu dominado e o eu dominador. mensagens e significações determinadas pelo outro.

Os externalizados são aqueles que atuam no mundo externo como executores do self na fronteira de contato e têm a função de satisfazer as necessidades do organismo físico e psíquico. no período da infância. faz o papel de um eu dominador que sabota o eu real.29). as quais são entendidas por Tenório (2003) como eus secundários externalizados. tentando fazer os ajustamentos criativos e possíveis em cada situação vivida no campo. que ainda não foram plenamente realizadas. por esse motivo. Estas características idealizadas e desejadas. . inicialmente. gerando conflitos internos que produzem a desintegração do self. que faz com que a função ego do Self desenvolva formas específicas de ser no mundo. que forçam a pessoa a realizá-las a qualquer custo. esse eu ideal está ligado a uma auto-imagem de realização e satisfação da pessoa consigo mesma. Tenório (2003) refere-se a essa diferença dizendo que enquanto o eu real apresenta-se como flexível. ou foram bloqueadas por dificuldades internas ou externas” (p. irracional e espontâneo. geralmente. não introjetado é formado. ao meio. incluindo nesta todas as características que o Eu gostaria de ter. enquanto imagem ou conceito de si mesmo. criativamente. A integração desses vários eus secundários forma o Eu. introjetado e não introjetado ou original. segundo Tenório (2003). O eu ideal original. e. Movido por necessidade de perfeição e plenitude inerentes à natureza própria da pessoa. a diferença entre “eu real” e “eu ideal”. gerando as neuroses. 27 autoritários. É a necessidade de ajustar-se. no entanto. Quando isto ocorre. o eu ideal representa uma imagem idealizada de si mesmo.. passam a ser confundidas com desejos e necessidades genuínas. Entre os eus secundários internalizados importa compreender. autêntico. que é a essência do si mesmo. compatíveis às realidades presentes. se baseiam na introjeção de cobranças e expectativas dos pais. motivações e aspirações intrínsecas ao Self. que pode estar em harmonia ou não com o Eu primário. nem sempre são conscientes e. esse eu ideal introjetado. principalmente com base nas “potencialidades.

quer dizer. por ser vivenciado como se fosse próprio do indivíduo. é ideal. p. 1971/1973). é denominado real. por esse motivo assume valores e significados distorcidos” (Tenório 2003. que foram internalizadas. o qual vai funcionar em substituição às figuras de autoridade. ou falso. não introjetado. e o introjetado. O dominado nunca está seguro de si e por isso luta em posição defensiva. não real. introjetado. Como a própria palavra diz.29). 28 Por outro lado. independente da escolha do indivíduo. às quais a criança teve que se submeter para garantir sua aceitação e aprovação. mas. atua de acordo com as exigências de figuras de autoridade. No entanto. construído obrigatoriamente pela introjeção de valores e padrões impostos pelas figuras de autoridade. O Eu real primário. à sua necessidade de sentir-se valorizada e amada dentro de seu contexto sócio-familiar. configurando aí a disputa entre o que Perls (1971/1973) classificou de “eu dominador” e “eu dominado”. A luta por controle é travada entre o eu dominador e o eu dominado: o dominador é muito severo. É algo que veio de fora e tomou posse. tão logo possa (Perls. A diferença existente entre o “eu ideal original” e o “eu ideal introjetado” também está ligada à forma de atuação de um e de outro: o original é movido “por uma tendência atualizante” (como é definida por Rogers. e além disso. tem-se o “eu ideal introjetado”. por sua vez o eu real introjetado é o resultado do processo de internalizar passivamente “experiências que não são originalmente suas. citado em Schultz e Schultz 2002). portanto. prima pela flexibilidade e espontaneidade. se comprometendo em atender o dominador. mas devido à dependência da criança em relação ao outro. . ao mesmo tempo não dispõe de muitos meios para forçá-lo a cumprir suas exigências. sempre sabe o que o dominado deve fazer. e o eu real introjetado apresentam uma diferença bem específica entre eles: o Eu original ou autêntico “não se enquadra em molduras rígidas ou padrões fixos de comportamento”.

29 Tenório (2003) salienta que quando o eu dominado se submete ao eu dominador. a pessoa sente que não tem valor e assume comportamentos coerentes com seu sentimento de baixa auto-estima. caso não atenda às exigências do seu “eu idealizado introjetado”. com o auto-apoio e auto-estima deficientes. Ao perceber que não consegue chegar ao ideal que o dominador quer impor. . Esta dissociação resulta em um “eu” fragilizado. ele perde totalmente sua liberdade e espontaneidade. porque acredita que vai perder seu valor e a consideração dos outros.

(Perls 1973/1988). concebe-o tanto como indivíduo. a Gestalt Terapia vê o homem como uma interação do indivíduo com seu meio. 30 3. por isso. Esse processo acontece num ciclo espontâneo. a qual se dá através dos processos de formação e destruição de figuras. No processo de auto-regulação ou de formação ou de destruição de figuras. as formas e técnicas de interação deste devem ser necessariamente fluidas e mutáveis para garantir sua sobrevivência. (Perls 1973/1988). Nesse sentido. e desaparece novamente após satisfação ou fechamento. sou seja. necessário usar a agressividade. desestruturar o meio ou a situação que é oferecida pelo meio. que seu comportamento só se torna compreensível a partir de sua visão dentro de um determinado campo com o qual ela se encontra em relação” (Ribeiro 1985 p. através da interrupção e do contato com o meio. para transformar. Perls (1975/1977) considera que o ser humano é dotado de um impulso natural em direção ao equilíbrio chamado por ele de auto-regulação. O Desenvolvimento da Personalidade no Enfoque da Gestalt Terapia A Gestalt Terapia utiliza-se da teoria de campo para explicar as interações campo- organismo-meio: “a Gestalt Terapia afirma que a pessoa deve ser vista como um todo. Essa constante mudança do meio se dá pela sua própria natureza e pelo que o indivíduo lhe faz. Essa abordagem considera o indivíduo uma função do campo organismo-meio e seu comportamento um reflexo de sua ligação dentro desse campo e por isso. dando lugar a uma nova figura. muitas vezes.95). quanto como ser social. pois a novidade mesmo sendo nutritiva. dentro da estrutura de um campo constantemente mutável. o organismo busca satisfazer suas necessidades de modo mais pleno possível. nem sempre é . no qual uma figura dominante emerge de um fundo indiferenciado. visando a manutenção do equilíbrio ou o estado saudável e para isso é. mobiliza energia através de um contato com o meio.

28). moral. Discorrendo sobre a correlação entre a função de assimilar nutrientes pelo organismo e personalidade.. faz o ajustamento criativo da parte que lhe interessa que é assimilada. É na mastigação que o indivíduo vai descobrir se o que foi ingerido é tóxico ou nutritivo.. de um suprimento de alimento intelectual. mensagens referentes à pessoa e oferecidas pelo meio.) a personalidade. este. e social por parte da personalidade se torna o fato central em seu desenvolvimento e auto-realização (p. Yontef (1998) situa o início do confronto entre o indivíduo e as forças externas socializantes nos primeiros momentos da vida deste. gerando o que o autor . do ambiente.. Explicando melhor o que isso significa. neste caso. para sua continuação. como o organismo. numa ação transformadora. visando um comportamento adequado ao presente. idéias ou relacionamentos” (p. A impossibilidade de rejeitar o que vai contra as suas necessidades reais é que o leva a ingerir sem assimilar. seja comida.. 31 assimilada em sua totalidade pelo organismo. conflitos internos ou mesmo de desintegração. também a assimilação intelectual. uma metáfora para explicar o desenvolvimento do Self através do processo de ingestão e digestão de informações. depende.) assim como a assimilação orgânica é essencial para o crescimento animal. Verifica-se então que a entrada de elementos não condizentes com as necessidades do Self em desenvolvimento geralmente se torna uma fonte de desorganização. o organismo com funcionamento saudável cospe (rejeita) o que é tóxico e assimila o que é nutritivo. social e similares. (. valores. o autor fala que os indivíduos crescem “abocanhando um pedaço de tamanho apropriado. Perls (1947/2002) cita Smuts que diz: (. (Tenório 2003).163). segundo Yontef (1998). conceitos. A estruturação da personalidade para a Gestalt Terapia está diretamente ligada ao metabolismo mental que é.

como é explicado por Perls (1981 citado por Tenório 2003): “a pessoa que introjeta nunca tem oportunidade de desenvolver sua própria personalidade. ou engolir sem mastigar. senão engolir o que lhe é imposto. a criança passa a conviver com algo tóxico dentro dela. porque está muito ocupada em ficar com os corpos estranhos alojados em seu sistema” (p. acaba criando bases para o empobrecimento de sua personalidade pois este tipo de introjeto faz com que ela seja impedida de desenvolver sua própria maneira de ser. 32 chama de “regulação deverística”. isolados de suas necessidades organísmicas ou da avaliação de suas prioridades internas” (p. A entrada de elementos nutritivos ou tóxicos é denominada. tanto a benéfica como a maléfica. muitas vezes ela não tem outra opção. citado em Tenório 2003) diz que: “a introjeção foi a única alternativa de sobrevivência do organismo diante de uma situação de impasse existencial” (p. ou seja. Com o propósito de explicar a causa dos introjetos tóxicos. No impasse existencial . mastigar) e esta. de introjeção ou inibição da agressividade oral (engolir sem. senão a de introjetar. que atuam como vozes internas. Delisle (1999.47). uma forma de atuar baseada em deverias que “dizem ao indivíduo como regular seu comportamento por padrões externos.234).48). portanto. O dominador . é incompatível com as necessidades da criança e com sua capacidade para transformá-lo e assimilá-lo. surge quando o material que o meio disponibiliza para a criança além de ser desagradável. No entanto. O resultado disso será a divisão do Self em duas estruturas conflitantes: o dominado e o dominador. na Gestalt Terapia. O contexto ambiental que leva a criança a engolir introjetos tóxicos. não condizente com a sua natureza. em vez de lhe oferecer condições de bom desenvolvimento. a qual produz uma desintegração da estrutura original do Self” (Tenório 2003).viver uma experiência intolerável e ao mesmo tempo inevitável – não resta à pessoa outra saída. é uma conseqüência da total dependência que as crianças têm dos pais. A dificuldade. configurando-se aí “uma introjeção bionegativa. Neste caso.

A importância da flexibilidade da fronteira entre o Self e o ambiente para o desenvolvimento de uma personalidade é ressaltada por Yontef (1998) que diz: “a fronteira deve ser mantida permeável o bastante para permitir trocas. diminuindo assim. às realidades interna e externa“ (p. Assim. O contato. punitivo. conceito de grande abrangência na abordagem gestáltica. É na fronteira que se dá o contato. no sentido de manter ou recuperar o equilíbrio no campo-organismo-meio. Segundo Tenório (2003) pode-se entender o funcionamento da fronteira do contato como “um movimento de abertura e fechamento alternado em relação a si mesmo e ao outro. dependendo de como se dá seu relacionamento consigo mesmo e com o meio. ou inibição da agressividade oral (engolir sem mastigar) torna-se a base da neurose ou funcionamento patológico. o eu e o outro alternam como figura e fundo. o contato maior é com ela mesma. Para Perls e cols. é a formação de uma figura de interesse contra um fundo ou contexto do campo organismo/meio” (p. sensoriais e motoras. Nesse sentido.69). no qual o indivíduo experimenta o sentimento de incapacidade e impotência diante dos impasses do meio.45). o funcionamento baseado nas interrupções de contato é organizado de forma particular em cada pessoa o qual caracteriza a personalidade como saudável ou patológica. Quando este movimento se inverte. autoritário e o dominado é hábil em escapar das ordens do primeiro. contato é “o trabalho que resulta em assimilação e crescimento.28). é definido como o processo pelo qual a pessoa se relaciona com o outro e consigo mesmo no qual envolve as funções cognitivas. Assim. a introjeção. sua fronteira se abre para este outro e ela própria torna-se fundo. porém suficientemente firme para gozar de autonomia” (p. (1951/1997). A perda da permeabilidade para o autor é o mesmo que a “perda da distinção . quando a pessoa se volta para o outro. 33 é exigente. o potencial de vida do ser humano (Tenório 2003).

os elementos básicos constitutivos da personalidade de cada indivíduo são os processos da fronteira de contato. Para a Gestalt Terapia. 34 entre o Self e o outro” (idem). Swanson e Crocker (1988 citados em Tenório 2003) acreditam que “a experiência humana se dá na fronteira de contato organismo/meio” e que as pessoas se diferenciam basicamente em dois tipos de personalidade: se elas são fixadas no contato estão abertas para a aproximação indiscriminada em relação aos outros. tornam o indivíduo incapaz de alterar suas técnicas de manipulação e interação tão necessárias para sobreviver num meio altamente cheio de competitividade e mudanças. a dessensibilização e a fixação.67). a deflexão. pelo qual são aprendidos e fixados determinados tipos de comportamento. por serem repetitivos e obsoletos. predominam em seu comportamento a desconfiança e o afastamento em relação ao mundo fora delas. os quais. De acordo com Tenório (2003) a personalidade é (. a . a retroflexão. sejam na abertura sejam no fechamento. de cura ou de bloqueio (p. Já a personalidade neurótica se caracteriza por padrões rígidos de comportamento que são mecanismos de interrupção do contato. os quais podem ser saudáveis ou neuróticos. caracterizados por formas específicas de estabelecer ou evitar o contato com o outro e consigo mesmo. a confluência. a proflexão. Assim... Na personalidade saudável. configurando um distúrbio de contato que geralmente se manifesta por meio de interrupções. são tidas pela Gestalt Terapia como mecanismos de defesa do ego e estão na base de uma gama de comportamentos neuróticos.) o resultado de um processo individual de adaptação às circunstâncias do campo organimo/meio. se a fixação for no fechamento. As interrupções fixadas. a elasticidade da formação figura/fundo é preservada. Os processos de interrupção de contato mais estudados por esta abordagem são a introjeção. o egotismo.

nunca discorda de nada nem de ninguém. embora umas apareçam como figuras enquanto outras permanecem como fundo em cada tipo de personalidade. demonstram que essas duas tendências. de foco no outro e pouco contato consigo mesma. tanto as interrupções fixadas na abertura – introjeção. com predominância de extroversão. citado em Tenório 2003) descreve o indivíduo que interage a partir da introjeção como o que faz tudo para se sentir aceito. confluência e proflexão. Dias (1994. assume. Do outro lado. tarefas que os outros lhe impõem chegando a se sentir culpado quando pensa que não atendeu as expectativas. Os estudos sobre fronteira de contato e suas particularidades de funcionamento. Uma pessoa que se sabe com baixa auto-estima e que venha a fazer uma análise honesta quanto ao uso da introjeção vai se encaixar em quase todos os itens descritos. . egotismo e retroflexão são mecanismos de defesa do ego e estão na base de todas as neuroses. como aquelas próprias do fechamento da fronteira – projeção. sem reclamar. aceita a vida como ela é e não tenta modificá-la. A leitura atenta da descrição dos comportamentos que são comuns a cada um dos mecanismos utilizados por indivíduos fixados na abertura parece indicar que o indivíduo com baixa auto-estima tem suas fronteiras fixadas na abertura. porque mantém suas fronteiras fechadas para o mundo externo. Para a Gestalt Terapia. a opinião dos outros é quem baliza suas decisões e escolhas. os valores e normas da sociedade são seguidos sem avaliação crítica. abre mão de seus interesses e necessidades. 35 personalidade fixada no fechamento apresenta-se como mais introvertida ou voltada para dentro. são formas de funcionar que contrariam a flexibilidade ideal e optam por interrupções como saída para manter o equilíbrio dentro do campo-organismo-meio. procura agradar mesmo com sacrifício próprio. encontra-se a personalidade fixada na abertura. é conservador por excelência cultivando com afinco os valores de sua família. a fixação na abertura e a fixação no fechamento.

ao antigo. vem a descrição das características da confluência. Com base nas características da introjeção. Gosta de agradar os outros. a confluência é definida com sendo um Processo pelo qual. que sempre lhe parecem superiores. como todos os outros processos de bloqueio do contato. A proflexão é uma forma de interrupção de contato baseada no desejo e na expectativa de que as pessoas sejam como o proflector deseja que elas sejam. sem diferenciar o que é seu do que é deles. isto é. Dessa forma. As atitudes da pessoa que vive em confluência também fazem parte do comportamento geral da pessoa com baixa auto-estima. mesmo não tendo sido solicitada e. a pessoa se liga fortemente aos outros. por não conhecer outra forma de interagir ele vive o sofrimento de não ser correspondido em suas expectativas e também acumula muito ressentimento resultante de suas manipulações mal sucedidas. agarrando-se firmemente aos outros. 36 Na seqüência. embora com sofrimento. perfeitas e felizes. diminui as diferenças para sentir-se melhor e semelhante aos demais e. As suas características parecem diluídas quando comparadas àquelas da introjeção e da confluência e se resumem.49). aceitando até que decidam por ela coisas que lhe desagradam (p. a autora descreve este funcionamento: . a qual segundo Tenório (2003). ao “eu existo nele”. temendo o isolamento. torna-se praticamente uma maneira de ser. Ribeiro (1997) faz uma síntese desse tipo de defesa descrevendo as atitudes dos indivíduos confluentes são sintetizadas na frase: “nós existimos. ama estar em grupo. o indivíduo não se reconhece “como sua própria fonte de nutrição” e daí volta-se para o outro sempre querendo algo em troca. confluência e proflexão. de acordo com Ribeiro (1997). Tenório (2003) traça um retrato psicológico do indivíduo que interage a partir de sua fixação na abertura. termina obedecendo a valores e atitudes da sociedade e dos pais. eu não”. já que esta não se vê à altura das outras pessoas.

Evita qualquer conflito através da submissão. Precisa do outro para saber o que quer e para definir o que é melhor para si mesmo. Ele não sabe lutar. concorda facilmente e costuma fazer o que é esperado pelos outros. 37 (. ele é extremamente voltado para os outros. Não consegue tomar suas próprias decisões e fazer suas escolhas com base em sua própria experiência. sem saber como conseguir o que deseja através de seus próprios recursos. Tem medo de ficar só e por isso se entrega totalmente. de forma direta e independente (p.. 67). Tenório (2003) esclarece que tanto a fixação na abertura como no fechamento das fronteiras de contato “constituem formas de defesa desenvolvidas pela função ego do Self. no sentido de evitar conflitos na relação com seu próprio mundo interno ou externo” (p. para que lhe proporcione aquilo que ele precisa. Não tem capacidade para atuar de forma agressiva. Os padrões de comportamento em qualquer das fixações se caracterizam pela rigidez que visa preservar a estrutura de “eu” do Self. Por esse motivo ele investe toda sua energia em agradá-los e satisfazer suas expectativas. . pois acredita que só através destes é possível encontrar sua própria felicidade. em Tenório 2003) separa os mecanismos que mais atuam no fechamento da fronteira daqueles cujas interrupções são próprias de seu funcionamento fixado na abertura. que é necessária a todo contato com o novo. Dias (1994. que se vê ameaçada constantemente “pela emergência de figuras ligadas a situações inacabadas do passado” (idem). apenas aceita ou manipula. supervaloriza o outro e se sente completamente dependente deste.70). Engole inteiro quase tudo que é compatível com sua estrutura introjetada de “eu”.) o indivíduo aceita tudo e não se opõe a quase nada que lhe é imposto. abrindo mão de seus próprios interesses e necessidades. discordar ou pedir diretamente.. Como não conseguiu desenvolver um suficiente auto-apoio. uma vez que sua agressividade foi amplamente diminuída.

Sua personalidade fica dividida como agente e paciente da ação. lembranças. emocional e afetiva. pensamentos. a deflexão. no egotismo e na retroflexão e geram interrupções próprias do fechamento do contato. por medo de perder seus próprios limites. Tenório (2003) ressalta que todos esses mecanismos são típicos da personalidade neurótica e que os demais. enquanto mecanismo de defesa contra a sensibilidade corporal. • Retroflexão: Função hermafrodita em que a pessoa volta para si o que ele gostaria de fazer a outrem. etc. atribui aos outros a responsabilidade pelos seus fracassos. Presença de fronteira rígida que separa o eu do outro. os quais são definidos abaixo por Tenório (2003): • Projeção: Processo pelo qual a pessoa. a confluência e a proflexão se caracterizam por atitudes de confiança. emoções. e dificuldade de incluir aspectos da realidade externa. coisas. enquanto processo de bloqueio de consciência. de se entregar. 38 Assim a introjeção. enquanto tendência à rigidez e ao apego exagerado às pessoas. ou faz a si mesmo o que gostaria que os outros lhe fizessem. • Egotismo: Capacidade exarcebada que o indivíduo tem de se perceber ou de auto- observar. impedindo-a de se envolver com o outro. idéias. a dessensibilização. que influencia também no relacionamento com o outro. apego e identificação com o outro e portanto se situam na abertura da fronteira de contato. de ter consciência exagerada de seus objetivos e do que precisa fazer para realizá-los. ou seja. desapego e alienação do outro estão alojadas na projeção. e a fixação. de fluir espontaneamente nesse contato. As atitudes de desconfiança. tendo dificuldade de identificar o que é seu. apresentam características neuróticas comuns aos dois tipos de personalidade citados e também ao funcionamento neurótico em geral e têm como .

A baixa auto-estima apresenta características próprias de um funcionamento neurótico. . que corresponde ao eu ideal introjetado o qual assume o papel de dominador. No conjunto de experiências vividas desde que a pessoa nasce é que estão as raízes para o tipo de personalidade que vai predominar e se esta terá um funcionamento saudável ou neurótico. como forma de preservar a auto-imagem idealizada. pois mesmo pais bem intencionados acabam moldando estas potencialidades em algo que eles e a sociedade aprovem. que pode ser fixado na abertura ou no fechamento da fronteira.79). O autor argumenta que geralmente a criança não tem oportunidade de desenvolver plenamente suas potencialidades. Essa construção se encaixa na visão de Perls (1975/1977) que vê o desenvolvimento da personalidade como um processo sujeito “a mutilação de algumas atitudes e um desenvolvimento artificial de outras” (p. Nos dois casos são utilizadas certas formas de interrupção do contato. ele constata que neste caso “a personalidade espontânea está sendo substituída por uma deliberada” (idem). 39 efeitos principais impedir a auto-regulação organísmica além de produzirem insatisfação e estagnação no processo de crescimento do eu.

Perls (1947/2002) refere-se ao “instinto de fome” e descreve a estreita ligação entre a satisfação não ideal deste instinto e as dificuldades posteriores enfrentadas pelas pessoas em termos de contato consigo e com os outros no decorrer de suas vidas. que passa a funcionar a partir de duas partes distintas: a parte verdadeira é suprimida e a parte falsa torna-se dominante. a dominada se encolhe. uma economia de sofrimento para o organismo dependente do apoio externo. nesse momento decisivo é que são implantadas as principais atitudes de interrupção de contato. que se dá por meio de mensagens proibitivas ou mensagens bio- negativas. encontram- se calcadas nas atitudes introjetadas advindas do meio externo. mas na verdade. determina que a pessoa diga para si mesma “não devo sentir raiva” enquanto a parte verdadeira. o eu ideal introjetado. 40 4. tendo em vista que o primeiro dá a sensação de serem próprias da pessoa suas escolhas e ações. Tenório (2003) exemplifica esta condição: o dominador. não são. mas que depois se estabelece como a maneira de ser do indivíduo. estão marcadamente presentes o eu real e o eu ideal introjetados. está estreitamente relacionada ao da alimentação psicológica. Estas mensagens causam cisão na personalidade. regulando sentimentos e emoções. Fome e Agressão. estas situações desagregadoras da personalidade podem ser vivenciadas pela criança desde seus primeiros contatos com o processo de alimentação fisiológica o qual. para esta abordagem. O mecanismo determinante do que Perls (1947/2002) chama de subdesenvolvimento da personalidade é a introjeção. A Construção da Auto-estima no Enfoque da Gestalt-Terapia O desenvolvimento da personalidade está sujeito a situações destrutivas que geralmente logram sufocar as potencialidades que todo indivíduo traz ao nascer. No entendimento desse autor. tornando-se fraca e alienada. . Em Ego. diante de uma experiência de raiva. Na formação da auto-estima. mais precisamente da baixa auto-estima. No entender da Gestalt Terapia. O segundo.

Para a GT. ela assume valores e significados distorcidos sobre si (Tenório 2003). Tenório (2003). . complexos de superioridade e inferioridade e que a terapia nem sempre consegue separar a camada de confusão que separa o si-mesmo da auto-estima” (pp. As interrupções de contato são eventos que ocorrem na fronteira de contato e geralmente tendem a se repetir gerando um padrão de comportamento baseado numa percepção distorcida tanto de si como do meio. Tenório (2003) explica o movimento da fronteira de contato dizendo que este se dá pela formação e destruição de figuras e que os indivíduos podem apresentar disfunção nesse movimento por meio da busca ou da evitação indiscriminadas de contato. um ideal que não é formado pelos anseios naturais da pessoa. pois. sua condição de individuo dependente e o seu inerente instinto de sobrevivência levam-na a se submeter. 41 é como a própria palavra diz. ao se interromper contatos acumulam-se situações inacabadas. O abdicar do verdadeiro eu é um processo progressivo do qual a criança não pode fugir e não tem como enfrentar. da qual depende para sobreviver. um padrão neurótico de atuar. Nos capítulos precedentes definiu-se a auto-estima como um valor que a pessoa se dá a partir de um auto-conceito positivo ou negativo e verificou-se que este sentimento é plantado enquanto se desenrolam as primeiras relações no âmbito familiar e social. Perls (1973/1988) salienta que muito se tem escrito sobre a superestrutura da auto-estima com nomes diferentes tais como “compensação. o que só é possível deixando de lado o que é dela e assumindo para si o que é dos outros. interferem na maneira de ser da pessoa e por esse motivo. possuindo características alheias. cujo valor está apoiado nos desejos das figuras significativas para ela. Ambos tornam-se semelhantes no ponto em que. viver é estar em contato e a redução do contato consigo mesmo e com o meio leva ao empobrecimento desse viver. sou seja. 62-63). que só vão deixar de interferir quando forem resolvidas. os quais ela obedece com o fim de receber aprovação.

as crianças superprotegidas tornar-se-ão dependentes e as mimadas só aparentemente auto-suficientes. acontece de duas maneiras: os pais podem mimá-los interrompendo assim suas tentativas de descobrir seus próprios pontos de apoio ou podem superprotegê-los destruindo sua confiança nas habilidades que as crianças querem testar.verifica-se que a pessoa cujas interações são permeadas pelo sentimento de valer menos terá “seu jeito de ser” engessado por uma visão distorcida de si mesma. Ao estudar os sintomas indiretos ou dependentes que aparecem no contexto psicológico de uma pessoa.113).24) . A partir de um dos aspectos do conceito de contato . “sua unidade funcional” de auto-estima terá o funcionamento de seu organismo perturbado como um todo e como atitude preponderante poderá desencadear “mecanismos como agressividade. essa distorção é explicada pela Gestalt Terapia como um resultado de experiências traumáticas vivenciadas no decorrer do desenvolvimento da personalidade. Sobre a influência que os pais exercem na constituição da auto-estima de seus filhos Perls (1973/1988) fala que essa influência. por completo. 42 Neste caso. Ribeiro (1999) refere-se às conseqüências das lesões que podem ocorrer aí: alguém que teve lesada. Impossibilitados de fazer uso de suas potencialidades. quando negativa. mas tanto umas como as outras não terão o benefício da auto-estima. estas experiências interferem nos contatos feitos no presente por promover um tipo de significação da realidade atual baseado no passado. auto-compensação e outros para tornar tolerável a perda de auto-estima“ (p. o indivíduo sente esta confusão como algo muito desagradável e por isso se mobiliza para não entrar em contato com suas áreas de confusão mantendo intocadas suas dificuldades com seu baixo auto-valor.“um jeito de ser e um jeito de se expressar“ (Ribeiro 1997 p. .

61). pois este sentimento não pode ser construído em cima de justificativas e auto- acusações mas sim por meio da ação.38). no enfoque da Gestalt Terapia. A menos valia ou sentimento de baixa auto-estima. pesar. o tormento de que você não deve ser o que é” (p. Para o autor o que ocorre aí é a realização da auto-imagem e não a auto-realização. Todas estas atitudes diminuem ainda mais o autovalor. outra vez. A perda da distinção entre o Self e o outro e a auto-estima precária criam uma necessidade visceral de apoio externo. por sua vez. “a maioria tem um vazio. em vez de realizarem a si mesmas. deixam evidentes as dificuldades para se realizar contatos verdadeiros seja consigo mesmo. A auto-estima. Sua necessidade básica é o constante apoio ambiental em forma de aceitação e aprovação. é o tormento do ideal. que por sua vez precisa vir sem críticas por conta da sensibilidade exarcebada do indivíduo com baixa auto-estima: “A auto-estima precária faz com que o indivíduo se torne muito sensível à crítica real ou imaginária” (Perls 1973/1988 p. Isto. Onde algumas pessoas têm um Self. pelo fazer algo de fato e pelo ser o que se é. assim quando o valor atribuído a si mesmo tende a ser elevado vão estar presentes a auto-confiança e atitudes assertivas. A auto-imagem idealizada ocupa um espaço muito grande na vida das pessoas e Perls (1969/1977) considera que a maioria delas vive apenas em função de sua imagem. .62). 43 O modo de viver da pessoa que tem baixa auto-estima está contaminado por uma forma de sentir que Perls. pois estão muito ocupadas em parecer isto ou aquilo. frustrações e culpa por ser inadequada. o resultado é uma necessidade constante de apoio externo: a necessidade de ser estimado pelos outros” (Perls 1973 /1988 p. pode ser entendida como um sentimento que leva a comportamentos adaptativos. ou seja. as pessoas realizam a concepção do que os outros e elas mesmas acham que devam ser. Hefferline e Goodman (1969/1997) descrevem como cheia de auto- reprimendas. seja com os outros: “ao faltar o apoio fornecido pela auto- estima.

tapinhas nas costas. são formas distorcidas de auto-regulação. a criança é desencorajada na busca de objetivos simples. Hefferline e Goodman (1969/1997) demonstram este processo: ao mesmo tempo que as iniciativas se perdem no desnorteamento. O sentimento de menos valia é um dos subprodutos dessa distorção. p. Perls. se todos têm mais valor que o indivíduo com baixa auto-estima. A comprovação dessa realidade é feita ao se observar “o extenso número de pessoas alienadas. há a redução a uma ordem simples de apetite e a um estado de não iniciativa ou de dependência: ser alimentado e cuidado. o resultado é o medo de tentar e a conseqüência é o abandono do apetite: “de modo geral. Isto leva a uma insegurança e inferioridade persistentes” (p.56). quando leva um tapa por ser “atrevida”. A atuação desatualizada tem sua origem na perda das iniciativas que foram suprimidas há muito tempo. As defesas construídas em função de experiências intoleráveis ao Self. incapaz de ir ao encontro de suas necessidades pessoais e sociais.40). este terá suas tentativas de contato contaminadas pelo medo de não ser aceito e pela necessidade incontrolável . Perls (1975/1977) ressalta que se esta dependência estiver relacionada com a auto-estima tudo se torna muito mais difícil: “se você necessita que todos lhe dêem elogios encorajadores. como por exemplo. A compreensão do desenvolvimento da auto-estima. 44 A Gestalt Terapia considera que a incapacidade de interagir saudavelmente com o meio pode surgir muito facilmente conduzindo o indivíduo à cristalização de um modo de atuar obsoleto. então está fazendo de todo mundo seu juiz” (p. com base nos conceitos da Gestalt Terapia. quanto mais dependência mais complexa é a realidade pessoal. pode ser facilitada pela análise do processo de auto-regulação organísmica e sua função provedora de satisfação das necessidades dos indivíduos em todas as dimensões em que se relacionam. não identificadas e isoladas à nossa volta” (Perls 1973/1988.51) Entre os papéis que os indivíduos podem aprender encontra-se o papel de desamparados ou de dependentes. sem entender como.

as interrupções de contato podem se tornar a base do sentimento de baixa auto-estima. mantém-se numa condição de vulnerabilidade. condição mais que suficiente para abortar suas possibilidades de construir relações satisfatórias. Tenório (2003) esclarece que tal condição é fruto da fraca definição da própria individualidade e identidade: “seu eu se confunde freqüentemente com o outro. à medida que se identifica facilmente com ele transfere para este todo o poder e responsabilidade em promover seu próprio bem estar e felicidade” (p. Como depende dos outros. O conceito de contato. é um conceito de grande abrangência na abordagem gestáltica.72). na medida em que este sentimento impede o individuo de ter um contato saudável com o meio externo. 45 de agradar. As estratégias de defesa e manipulação do indivíduo com baixa auto-estima também têm o objetivo inconsciente de evitar o abandono. Para esta abordagem. . o aspecto predominante em sua maneira de ser é a dependência. ou seja. o que vai impossibilitar tanto suas realizações como o seu bem estar. que na sua gênese é a forma como a pessoa se relaciona com ela mesma e com o mundo exterior.

no entanto. que a nutrem e contribuem para seu bem estar e seu crescimento natural. o indivíduo aparece como um elemento ativo do seu processo de desenvolvimento. Perls (1973 /1988) concluiu que nos últimos tempos houve um crescimento exponencial na compreensão que o homem tem das coisas e de si mesmo. Visto como um sintoma. o indivíduo que desde seus primeiros anos de vida recebe em seu interior elementos incompatíveis com suas verdadeiras necessidades. um apoio fraudulento. O autor observa que. Neste contexto. o indivíduo não consegue assumir a responsabilidade por si mesmo e passa a buscar. dando ordens. numa condição de um desenvolvimento sadio. explicações e respostas. pedindo ajuda. Observa- se que. isso não foi acompanhado da . este desconforto é. sem conseguir pôr em prática recursos próprios com vistas à sua autonomia. que favorece a liberdade do uso das capacidades inatas. ela recebe coisas de boa qualidade. se o ambiente é benéfico e oferece bases confiáveis ao desenvolvimento sadio da criança. criada pelo organismo. no qual o apoio ambiental é transformado em auto-apoio. A partir de suas observações do comportamento humano. seu potencial inato. esta abordagem terapêutica considera neurótica a pessoa que é incapaz de conquistar sua independência do meio em que vive. Assim. Por outro lado. na prática. 46 5. para tentar se auto-regular” (p. “uma forma desesperada. a criança aprende a usar seus próprios recursos na busca do equilíbrio. na visão de Ribeiro (1997). Em oposição a este comportamento maduro. como é o caso do neurótico. mesmo quando ainda depende completamente de cuidados por parte dos adultos.79). A Mudança do Funcionamento Psíquico no Enfoque da Gestalt Terapia A Gestalt Terapia parte do pressuposto que a maturação do indivíduo constitui-se através de um processo contínuo. no ambiente. ficando livre para usar. em ambos os casos. Polster & Polster (1973/79 em Tenório 2003) falam que. vivencia um constante desconforto que ele busca constantemente resolver ou modificar.

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capacidade de usar esse conhecimento em interesse próprio e, no seu ponto de vista, entender-se

apenas como manobra intelectual não tem utilidade para a vida cotidiana: “o homem pode viver

uma vida mais plena e rica do que a maioria vive agora (...) O homem não começou ainda a

descobrir o potencial de vida e energia que nele repousa” (p.13).

Nesse sentido, a mudança, para Perls (1973/1988), passa necessariamente pela mudança

de postura, em vez de um mero exercício intelectual, ela requer envolvimento prático com o auto-

entendimento e o crescimento pessoal:

A compreensão de nós mesmos deve ser consistente. Se não nos podemos

compreender nem entender o que fazemos, não podemos pretender resolver nossos

problemas nem esperar viver vidas gratificantes. Porém tal compreensão do Self

envolve mais que o entendimento intelectual habitual. Requer sentimento e também

sensibilidade (p.17).

A integridade, segundo Perls (1973 /1988), é a verdadeira natureza do homem e por este

motivo, só na integração entre espontaneidade e propósito ele pode fazer uma escolha existencial

eficiente. Funcionando como parte de sua natureza essas duas forças levam o homem a “se dar

conta e se responsabilizar pelo campo total, pelo si mesmo tanto quanto pelo outro“ (p.62). Dessa

forma, a dinâmica da integridade gera significado e dá uma configuração auto-realizadora à vida

dos indivíduos.

De acordo com Perls (1973 /1988) as pessoas tornaram-se fóbicas em relação à dor e ao

sofrimento e a atitude de fugir das frustrações dolorosas é, a seu ver, um impedimento para o

crescimento. Receando ser mal compreendido, Perls ressalta que não está falando de masoquismo

mas do sofrimento que acompanha o crescimento: “falo de encarar honestamente as situações

desagradáveis” (p.132).

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Perls (1973 /1988) ressalta que o indivíduo introjetivo sempre procura atalhos e tem

muita preguiça de assimilar o mundo e em função de tudo isso seu crescimento e auto-realização

ficam prejudicados. Polster e Polster (1973/2001) corroboram este pensamento a respeito da

tendência humana para o emprego da lei do menor esforço: “a tríade impaciência, preguiça e

ambição faz surgir impedimentos poderosos para elaborar o material introjetado, para mastigá-lo

literal ou figurativamente” (p.91).

Perls (1969/1997) enumera vários sintomas que impedem o crescimento de uma pessoa e

promovem a sua estagnação: “a necessidade de manipular o mundo, distorções de caráter; a

redução do potencial humano, a perda da habilidade de responder” (p.11), e por último, como o

mais importante, a emergência de buracos na personalidade. O remédio, segundo o autor, é a

saturação que aqui tem o sentido de esforço contínuo para transcender o suporte ambiental,

substituindo-o pelo auto-suporte, o que significa uma crescente redução das dependências.

A mudança para Perls, Hefferline e Goodman (1951/1997) requer do indivíduo que ele

recobre a flexibilidade da relação figura/fundo e ele só chega a isso trabalhando com o óbvio:

“dissolvendo o que está petrificado, distinguindo o blá-blá-blá do interesse verdadeiro, o obsoleto

do criativo” (p.36), esse é o processo de crescimento e maturação que o leva a experienciar a

totalidade, desenvolvendo harmoniosamente o seu Self.

Os mesmos autores fornecem alguns esclarecimentos sobre a correlação entre a origem

dos problemas que afligem os indivíduos e a permissão que se dá ao organismo para se auto-

regular, suaa conclusão é de que a grande maioria das pessoas é regulada pelo meio social e por

isso perdeu a capacidade de auto-regulação além de sofrerem de um elevado déficit de energia.

No entanto, tais indivíduos são responsáveis por grande parte dos seus problemas e só eles

poderão resolvê-los: “muitas condições, tanto objetivas como subjetivas podem e devem ser

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mudadas (...) há sempre reações regulatórias do próprio organismo que ajudam a restaurar o

equilíbrio, se ao menos permitirmos que o façam” (p. 85)

A ocorrência da mudança, segundo Hycner (1995/1997), está estreitamente ligada à

awareness, importante conceito da Gestalt Terapia que é definido por Ribeiro (2006) como ” a

consciência da própria consciência ou como um processo pelo qual me torno consciente de minha

própria consciência aqui e agora no mundo” (p. 74). Assim, Hycner (idem) considera que a

awareness - a aceitação daquilo que é - torna-se um pré-requisito para a mudança e que a

mudança ocorre com a awareness suportiva do que é. A awareness se desenvolve quando a

pessoa “investe na experiência atual, sem exigências para mudá-la e sem julgamentos de que não

deveria ser o que é” (p.77).

Geralmente as dificuldades são vistas como um aborrecimento inesperado e dispensável

mas Hycner (1995/1997) lhes confere um outro status: “nossas dificuldades são nossa força vital”

(p.130). A tendência do indivíduo é evitar os aspectos pessoais que o incomodam mas o

organismo busca a auto-regulação e para que isto ocorra, a vida providencia para que aquilo que é

evitado acumule mais e mais forças até que não possa mais ser ignorado. Dessa forma, a rejeição

psicológica das partes intoleráveis exige um progressivo dispêndio de energia cujas

conseqüências vão se manifestar por meio de sintomas e adoecimentos caso não haja mudanças.

A maturidade, para Perls (1969/1977), é sinônimo de aprendizagem e esta é sinônimo de

descoberta. Embora todo indivíduo tenha o objetivo básico de realizar-se naquilo que é, as

experiências carregadas de material tóxico bloqueiam as possibilidades de auto-realização.

Quando este indivíduo aprende/descobre que ele não é aquilo que lhe disseram que deveria ser,

conquista uma nova realidade que é o prazer de andar sobre os próprios pés.

Ribeiro (1999) mostra sua confiança no ser humano quando fala da capacidade que toda

pessoa tem de mudar o rumo de sua existência. O autor ressalta que fazer uso desta capacidade

confere ao ser humano a responsabilidade pela sua forma de viver a vida: A pessoa humana não é vítima de si mesma.46). Se as fronteiras são rígidas tornam-se um dificultador com grande poder para impedir mudanças. Dependendo do grau de resistência que as fronteiras possam oferecer. a Gestalt Terapia mensura a importância da fronteira de contato no que se refere ao seu ritmo de trocas. 50 depende exclusivamente da pessoa mas que o medo de correr riscos pode inibir e até paralisar a pessoa que prefere o desconforto e o sofrimento conhecidos do que confrontar seus conflitos interiores. saiba o que deseja mudar e de onde e para onde deseja se locomover” (p. a mudança não ocorre por acaso e nem por decreto. Lewin. 58). Por ser uma escolha. é uma escolha: “para que a mudança ocorra é preciso que a pessoa queira mudar. surpresas. A partir da teoria de campo. estar disponível para assumir riscos. mas é responsável pelo seu destino. a vitimização. para o autor. . (citado em Ribeiro 1999). suas possibilidades de uma vida mais rica estão soterradas por forças que elas desconhecem. é um processo desestruturador que só a ele cabe restaurar. a resistência será maior ou menor. não é determinada a priori pelos seus instintos (psicanálise) ou por condicionamentos inevitáveis (behaviorismo). Querer mudar significa. Ribeiro (1999) fala das dificuldades e das possibilidades de mudança determinadas pela rigidez/fluidez das fronteiras de contato: Mudar é locomover-se no espaço de vida. tão comum no indivíduo com baixa auto-estima. na maioria das vezes. prazeres e compromissos que a vida pode apresentar. e essa locomoção é dinamicamente maior ou menor dependendo das forças que atuam neste campo. Portanto. pela sua liberdade e passa a correr o risco de existir por conta própria (fenomenologia existencial) (p. Perls (1973/1988) ressalta que é grande a quantidade de pessoas afundadas na alienação.

portanto. o autor considera que fatores de cura ou fatores psicoterapêuticos. no nosso contexto. ela mesma sujeita a mudanças (p. Necessariamente. Assim. ou seja. 51 Quanto mais sólida a barreira de fronteira. estando assim.também é a totalidade que precisa ser mudada. Para Ribeiro (1997). têm um alto potencial de alterar comportamentos. na produção do efeito ocorrido. é que se descobre que elementos variados encontram-se interligados.o sintoma surge apenas como um grito de dor da parte mais lesada . ao falar sobre a tendência dos indivíduos de se fixarem em problemas. o grau de fluidez determinará o nível das mudanças (p. Buscando-se a gênese de uma mudança. Nesse sentido. apesar de não haver uma automática justaposição de contato e mudança na produção de um resultado. toda mudança passa pela experiência do contato. mais difíceis serão as mudanças e a locomoção. provocar mudanças e até mesmo de afetar a própria natureza da personalidade: A estrutura da personalidade.98). pois é por ela que se pode perceber como o sintoma foi estruturado. no seu entender este é o caminho para a saúde. Ribeiro (idem) afirma que o processo de mudança segue a mesma lógica do adoecimento: assim como é a totalidade que adoece . só aparentemente a mudança ocorre por acaso. a própria fisionomia: é tornar-se senhor de si mesmo” (p. Ribeiro (1997). um fundo que garante a continuidade da realidade da pessoa sofrendo as influências do meio e das variáveis não psicológicas. como algo dinamicamente estático. no que se refere a um tipo diferenciado de aprendizagem que ele proporciona: . 38). outra vez enfatiza a importância do processo terapêutico. quando ocorridos em psicoterapia. deve ser vista. 69). Esse autor considera importante o fechamento das gestalten e não somente a destruição das mesmas. fechar gestalts significa “encontrar o próprio sentido. de modo dinâmico.

Assim. esta a leva à consciência que. ficando fixado no problema (p.39). no qual a pessoa se revê como como ser-no-mundo e ser-do-mundo para uma posição plena de ser-para-o-mundo” (p. • Uma totalidade dinamicamente transformadora: para a Gestatl Terapia. no qual a pessoa se observa e descreve para si a própria aptidão para mudar. é necessário que o pensamento aconteça junto com a emoção e a ação. Quando a pessoa alcança a totalidade. provoca a intencionalidade que predispõe para a mudança e . que permite à pessoa continuar sua busca de contato consigo mesma no mundo. aprendizagem e solução de problemas que o cliente viveu anteriormente e por meio dos quais se tornou momentaneamente sem habilidade para lidar com sua mudança. Um fator de cura é o momento maior do contato do diálogo e da mudança. discutidos por Ribeiro (1997): • Um universo cognitivo. a pessoa precisa se localizar na sua relação com o sintoma. certezas e verdades que fazem parte de si e de seu próprio cotidiano. Tendo em vista que mudança não ocorre sem que haja uma busca interessada. o indivíduo deve estar envolvido com as dúvidas. não basta o pensar. 52 O processo de mudança implica uma reformulação no sistema de percepção. Nessa busca. constante e inteligente. • Uma consciência emocionada: para a mudança. “o ciclo como um todo representa a caminhada de ‘fixação/fluidez’ para ‘confluência/retirada’. a totalidade precede sempre a consciência plena. os três elementos juntos possuem a força da mudança. por sua vez. o qual envolve alguns elementos básicos. A mudança tem outras formas de ser promovida e Ribeiro (idem) menciona a experiência plena de cada passo do ciclo do contato.32).

Em resumo. a mudança. Para Beisser (1971/1973). vem o alívio. a cura em Gestalt terapia é concebida “como função do contato.. esta se encontra subentendida em grande parte de sua obra. (. É uma mudança que ocorre quando a pessoa é o que “é” e não quando tenta se converter no que não é. Assim. “nunca se identificando plenamente com uma nem com a outra” (p. Ribeiro (1997) cita o exemplo de uma pessoa que ao ouvir no grupo alguém falar de sua dor. Walter Ribeiro (1998).111). ao comentar a Teoria Paradoxal da Mudança de autoria de Beisser (1971/1973). ao procurar uma psicoterapia buscando mudanças. 41). duas facções intrapsíquicas que guerreiam entre si: uma é o que deveria “ser” e a outra. cresce ou desenvolve se for espicaçada ou com aplicação da lei da palmatória. que embora Perls não tenha delineado uma teoria de mudança. esse sentimento é capaz de produzir mudança e até mesmo cura e por isso é chamado de fator de cura.. Segundo Beisser. O autor . 53 juntos facilitarão a transformação. como algo relacional entre pessoa-mundo e bloqueio-fator de cura” (p. Segundo o autor.) a mudança ocorre com a dedicação de tempo e esforço pelo indivíduo de ser o que é e não através de tentativa coercitiva que possa vir de si mesmo ou de outra pessoa. a mesma pode ocorrer de modo significativo e ordenado (p. impotência e sofrimento. de que a pessoa só muda. já que desejo e ação participam como elementos básicos no processo de mudança. mais especificamente implícita na prática das técnicas. o que pensa que “é”. a pessoa encontra-se em conflito com. Para facilitar o entendimento desse processo. esclarece o conflito relativo à crença profundamente aceita. rejeitando o papel de agente de mudança. entende não ser a única a ter os mesmos sofrimentos e a partir dessa compreensão. Entende Beisser (1971//1973). 110). a esperança e a coragem para mudar. no mínimo.

fazer o que este sábio decidir. em nosso sábio e. Concluindo. fica claro que. a partir daí.59). ao se aceitar e ser aceito por pessoas significativas para ele. p. portanto. 54 defende que as terapias gestálticas. em ambiente favorável. provando que a verdade está do outro lado: “na crença de que o ser humano. como decorrência lógica. para a aventura de viver. em nós mesmos e. como disse Fritz Perls. 57) . (Ribeiro 1998. . mas entrar em contato consciente com o sábio que cada um tem dentro de si e. nos comportamentos fixados. Ribeiro (1998) mostra o efeito benéfico: o indivíduo. Em outras palavras: “curar é acreditar com ‘A maiúsculo’. buscando o esquecimento necessário como droga forte que alivia a sua dor mas tira dele o poder. o individuo opta por se conservar nos velhos padrões adquiridos. desmentem radicalmente essa crença. para a Gestalt Terapia. e no Mundo”. Há. a opção da não-mudança. O acolhimento em forma de aceitação incondicional é um elemento que auxilia na opção pela mudança. de permanência nos modos estereotipados de ser. obstruindo ou desviando o fluxo interativo e alimentando um processo doloroso pela negação que encerra. pára de se julgar e levar em conta julgamentos alheios desenvolvendo assim a autoconfiança e a auto-estima indispensáveis para a aventura de experimentar o novo. inter-relacionando-se de forma sadia e não sofrendo sistematicamente relações pedagógicas. acreditar no Outro. se isso for melhor. Ribeiro (1998) esclarece que a opção por não mudar pode ocorrer devido ao medo da incapacidade de lidar com o novo. porém. curar não significa solucionar problemas. com o instável. desenvolve o seu potencial e se modifica (cresce) sem maiores dificuldades ou traumas” (p. Neste caso. assim. se houver sentido nessa mudança. torna-se mais livre passando a ter a opção de se manter como é. quando bem aplicadas e coerentes com a teoria. ou para mudar.

limitam as possibilidades de realização da pessoa em todos os seus campos de atuação. A formação do auto-conceito. cujo desdobramento. tanto pelas pessoas significativas para ela. no decorrer da vida. é adquirida. por uma questão de sobrevivência.T. resulta da introjeção de mensagens bionegativas ocorridas no seu contexto existencial. a existência da baixa auto-estima se dá em razão de a pessoa não ser aceita da forma que ela é. diretamente relacionada ao auto-conceito que a pessoa tem sobre si mesma. é um processo complexo e dinâmico. A baixa auto-estima. Para a G. . às quais a pessoa não teve possibilidade de rejeitar. A simples observação de si mesmo e daqueles que estão próximos seja na família. no trabalho ou em outros contextos sociais mostra o quanto o ser humano experiencia o viver como uma luta carregada de angústia e desconhecimento das próprias potencialidades. numa infância marcada por desqualificações sistemáticas. quanto por si mesma. na escola. resultado de uma tendência para o julgamento desfavorável de si mesmo. A auto-estima é uma experiência íntima. Essa não aceitação de si mesma tal como é. Neste contexto a Gestalt Terapia e seu arcabouço teórico/prático constroem o entendimento dos caminhos que levam a pessoa a perder-se de si mesma e as inúmeras possibilidades do auto-encontro à sua disposição. tanto positivo como negativo. para não perder o amor e a consideração das pessoas das quais dependia. 55 Conclusão A sociedade contemporânea detém um alto nível de desenvolvimento científico que não apresenta correspondência no que se refere às formas e meios que utiliza para conduzir seus membros desde o nascimento até a idade adulta. por diversos tipos de abuso e pelo abandono. que é constantemente alterado pelo sistema das relações interpessoais. principalmente.

A existência desse eu ideal introjetado. foi imposto pelos outros. passando. Desse modo. exige e pune o eu dominado. Esse eu ideal introjetado vai fazer o papel de um dominador interno que cobra. na verdade. Então. ela passa a introjetar uma imagem de si de que não é boa. por estar sempre insatisfeita e achando-se muito aquém desse ideal que. são tipos de introjeção que. rejeitada. quando a pessoa não consegue corresponder às exigências desse eu dominador. Isso acontece com a criança que não foi suficientemente valorizada. de não ser . maltratada. de uma imagem idealizada à qual a pessoa pretende corresponder. não é seu. você tem que” e o eu real. o que é composto dos reais valores e necessidades do indivíduo e que não se enquadra em molduras rígidas ou padrões fixos de comportamento. amada. aquele composto das mensagens “você deve. terá sempre implícita uma mensagem de não merecimento. 56 A fuga. que não tem valor. se está agindo certo ou errado. Essa dinâmica se faz necessária sempre que ela se encontra frente a situações incompatíveis com as suas necessidades. por sua vez. os quais que ela de fato não aceitou. humilhada. a pessoa torna-se muito confusa. ou que estejam acima de suas possibilidades. sem questionamentos. abandonada. sempre de acordo com a opinião alheia é claro. nessas experiências de ser cobrada. sem contestação. aquele construído pela introjeção de valores e padrões impostos pelas figuras de autoridade. são os introjetos tóxicos. porque a pessoa passa a ter dentro de si aspectos que não são seus. por não saber quando suas atitudes serão aprovadas ou não. Tendo introjetado todo um material não condizente com sua real natureza. a pessoa passa a conviver com um grande conflito resultante da luta entre o eu ideal introjetado. submissão e aceitação passiva das ordens e das mensagens vindas dos pais e de outras fontes. por isso. geram conflito. faz com que ela sinta baixa auto-estima. a não se aceitar também. considerada positivamente e de forma incondicional. e não com a sua.

o que a envolverá em dúvidas. sem nenhuma influência externa. não discorda. o que pode levar o indivíduo à cristalização de um comportamento obsoleto. pensamento e emoção andam juntos. não tem que conviver com o conflito interno entre seu eu ideal introjetado e seu eu ideal não introjetado. antes de tudo. não luta. do que os outros exigiam dela. autêntico. necessita. de haver algo errado consigo mesma. Assim. abre mão de seus próprios interesses. no qual. . A Gestalt Terapia considera que a incapacidade de interagir saudavelmente com o meio pode surgir muito facilmente. torna-se dominadora. valorizada. e por conseqüência. No entendimento da abordagem gestáltica. 57 amada. mais compreensivo. tornando-o incapaz de atender suas necessidades pessoais e sociais. não exercita sua agressão sadia. a pessoa que se baseia numa imagem idealizada. e então. a pessoa que possui baixa auto-estima e deseja mudar. ter a coragem de se conscientizar no aqui e agora. Essa consciência deve ser emocionada. que aceita melhor suas limitações. descobrindo o que é causado por si mesmo ou pelos outros. responsável por de grande parte de seus sofrimentos. maneiras limitadas de expressão e atuação em seu meio Esse modo de viver lhe traz muita insatisfação consigo mesma por estar sempre buscando corresponder a uma imagem idealizada que foi construída a partir do que os outros esperam dela. num eu idealizado não introjetado que é mais condescendente. Diferentemente. incertezas e verdades que pertencem a si e ao seu cotidiano. e por ser introjetada. não aprende a desenvolver o auto-apoio. aprender a encarar honestamente as situações desagradáveis. partir para a ação. mas não com o meio. do que ela sente exatamente. pois não basta pensar. supervalorizando o outro para sobreviver. por medo de ficar só e através da submissão. conflito este. tornar-se uma nova pessoa. de não ser boa o suficiente. possuidora de alta estima por si. a opinião distorcida sobre si mesma pode levar a pessoa desenvolver um modo confluente e proflectivo de se relacionar com as pessoas. isto é.

desenvolvendo assim. é percebendo e mudando sua maneira confluente e proflectiva. descobrindo o que lhe agrada e o que lhe desagrada. Deve agir com determinação na busca de fortalecer o eu ideal não introjetado. própria de quem é fixado na abertura. entende que o individuo deve buscar um contato saudável com o meio externo. visando reduzir o conflito entre o eu dominador e o eu dominado. isso é. a autoconfiança e a auto-estima indispensáveis para a aventura de experimentar o novo. É desintrojetando. exercitar a auto-aceitação. parando de se julgar e levar em conta os julgamentos alheios. deve parar de se julgar e levar em conta julgamentos alheios e evitar os comportamentos dependentes. original. em busca do que é. que a pessoa pode caminhar rumo ao seu crescimento. o que vai possibilitar tanto suas realizações como o seu bem estar. e não do que os outros querem que seja. Deve aprender a ouvir seus próprios sentimentos. é buscando percorrer inteiramente o ciclo do contato. autêntico. a pessoa deve dedicar tempo e esforço em busca de sua essência. o auto- acolhimento. sempre apoiado pelo seu sábio interior. Procurando aceitar-se tal como é. desenvolvendo a auto-confiança calcada em atitudes assertivas. todo o material tóxico que a vida lhe obrigou assimilar. cuidando da devida permeabilidade da fronteira do contato. Finalizando. para a aventura de viver. a Gestalt Terapia. conseqüentemente. passando a ter a opção de decidir o melhor para sua vida. pensamentos e desejos. conscientemente e aos poucos. tornar a ser mais livre. . resultantes do auto apoio. ser aceito por pessoas significativas para ele. e. 58 Nessa busca pela elevação da auto-estima.

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