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Estágio Supervisionado
em Psicologia Escolar:
Desmistificando o Modelo
Clínico1
Supervised Training Course in School Psychology:
“Demystifying” the Clinical Model
Prácticas Supervisadas en Psicología Escolar:
Desmitificando el Modelo Clínico

Maria de Fátima
Evangelista Mendonça Lima

Experiência

Universidade Federal de
Mato Grosso do Sul

PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2009, 29 (3), 638-647

Resumen: El objetivo de este relato es presentar la práctica de Cursillo Supervisado en Psicología Escolar de la UFMS. 1 O referido estágio supervisionado. Abstract: The aim of this report is to present the practice of supervised training in educational psychology at the UFMS. o reconhecimento da especificidade da atuação psicológica e o planejamento da intervenção. MS. desarrollada en unidades de CEINFs (Centros de Educación Infantil) de Campo Grande. é desenvolvido no espaço de dois anos. 29 (3). MS. de aproximadamente 2h. 102 horas de duração (anual). Federal University of Mato Grosso do Sul. School/education psychology. as well as the main challenges that are present in a coherent and consistent educational attendance to the child up to 6 years old. em Campo Grande. 34 horas (semestral). MS. desenvolvido em 34 horas. Pensar nesses objetivos é entender que a Psicologia pode oferecer seus conhecimentos para a área da educação em geral e da educação infantil em particular. “a contribuição da Psicologia para a educação infantil deve Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . The training had as objectives: knowledge and analysis of the institucional space of infant education. e supervisão semanal de 4h aula. Psicología escolar/educacional. It mainly points the presence of crystallized behaviors in relation to the role of the school psychologist. MS/ MT.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. Palabras clave: Prácticas supervisadas. The practical period of training was developed by weekly visits to the institutions of approximately 2:00 h and weekly supervision of 4:00 h lesson. así como los principales desafíos que se presentan en el camino rumbo a un servicio educacional consistente y coherente al niño de 0 a 6 años de edad. os objetivos do Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar II. de aproximadamente 2h. foram: (1) propiciar a discussão sobre o espaço institucional da educação infantil no qual se insere o profissional de Psicologia e (2) favorecer o reconhecimento da especificidade de atuação psicológica e a busca do planejamento da intervenção da Psicologia escolar no campo da educação infantil. Especificamente. en guarderías y pre-escuelas. Segundo Urt. A prática de estágio foi desenvolvida por meio de visitas semanais às instituições. crianças e profissionais que ali atuam. Palavras-chave: Estágio supervisionado. o Estágio II. La práctica de las prácticas fue desarrollada por medio de visitas semanales a las instituciones. atingindo pais. Sabemos que há conflitos e tensões na aproximação entre a Psicologia e a educação. el reconocimiento de la especificidad de la actuación psicológica y la planificación de la intervención. y supervisión semanal de 4h clase. 638-647 639 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima Resumo: O objetivo deste relato é apresentar a prática de Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar da UFMS. composto de três fases. Infant education. as developed in the CEINFS (Centers for Infant Education) of Campo Grande. desenvolvida em unidades de CEINFs (Centros de Educação Infantil) de Campo Grande. El relato señala principalmente la presencia de comportamientos cristalizados en cuanto al papel del psicólogo escolar. Keywords: Supervised training. Las prácticas tuvieron como objetivos: el conocimiento y el análisis del espacio institucional de educación infantil. assim como os principais desafios que se apresentam no caminho rumo a um atendimento educacional consistente e coerente à criança de 0 a 6 anos de idade. O relato aponta principalmente a presença de comportamentos cristalizados quanto ao papel do psicólogo escolar. do Curso de Psicologia da UFMS. in day-care centers and nursery schools. O estágio teve como objetivos: o conhecimento e a análise do espaço institucional de educação infantil. 2009. MS. promovido pelo Conselho Regional de Psicologia – 14ª Região. integrar a teoria e a prática através de vivência de experiência o mais próximo possível de situações reais e propiciar maior contato com a área da educação. O Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar. recognition of the specificity of the activity of psychologists and the planning of interventions. mas isso não implica negação da participação e da contribuição da ciência psicológica para a educação. Psicologia escolar/educacional. tendo o Estágio I 34 horas de duração(semestral). em creches e pré-escolas. e o Estágio III. Educación infantil. é integrante da estrutura curricular e tem como objetivos: propiciar a formação técnico-profissional. Trabalho apresentado no I Encontro Regional de Psicologia Escolar e Educacional. Educação infantil.

da instituição creche/pré-escola e da sociedade. seja da aprendizagem. pouco a pouco. fundamentalmente. O desenvolvimento da criança é o processo de apropriação da evolução histórica da humanidade. o que significa dizer que os sistemas de representação da realidade vêm do social (Souza. uma vez que se ocupa. a Psicologia. quanto à definição de suas funções. nesse sentido. 638-647 640 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima centrar-se em uma base primordial: é preciso conhecer quem aprende e como se desenvolve” (p. Uma Pedagogia da infância e da educação infantil necessita considerar outros níveis de abordagem de seu objeto: a criança em seu próprio mundo. no qual a criança vive. ao contrário daquelas (que têm se constituído historicamente como uma pedagogia escolar). procurando fazer uma conexão com os determinantes sociais e estimulando a interface com a Sociologia. Assumimos esse enfoque da Psicologia na instituição educacional creche/pré-escola. Mantém-se a passagem da infância de um âmbito familiar para um institucional. Como nos mostra Rocha (1999). organizada. o homem se transforma de biológico em histórico-cultural. O psicólogo escolar. é possível pensar em orientações para a educação da criança de 0 a 6 anos de idade diferentes dos parâmetros pedagógicos estabelecidos a partir da infância em situação escolar. é que lhe oferece as formas de descobrir e organizar o real. 2006). etc. O desenvolvimento da psique de uma criança é determinado diretamente pela sua própria vida. de projetar a educação desses novos sujeitos sociais. É uma atuação que envolve a instituição creche/ pré-escola em sua totalidade. Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . seja dos conteúdos transmitidos. a História. atuando de forma conjunta com outros profissionais. segundo Rocha (1999). passa. 29 (3). Defendemos uma atuação abrangente. pelas condições concretas que possibilitam interações e relações possíveis (Urt. isto é. A partir da produção acadêmica produzida no Brasil. as artes. co-responsabilizando-se pela criança. suas funções aqui se encontram em processo de constituição. a creche. 13). que. Trata-se de um modelo de estágio interacional. também. Além do mais. a Pedagogia. a Antropologia. Assim. seja do desenvolvimento global da criança. Nessa perspectiva vigotskiana. seria um educador. que se realiza através das trocas estabelecidas com os adultos nas condições de ensino. não perdendo de vista os conteúdos veiculados com as experiências das crianças e com a análise da família. se tiver o comprometimento de pôr à vista o aparente e desocultar o real. e. 2003). a biologia. que. que abrange a relação criança-instituiçãofamília-sociedade. de conhecer a si mesma e o meio que a cerca e de operar sobre ele. 2009. Nesse modelo. 2006). (p. deve traduzir as reflexões conjuntas em ações concretas a serem assumidas pelos envolvidos no processo ensino-aprendizagem. O rompimento com algumas concepções cristalizadas é um dos caminhos (Urt. 50) Acreditamos que a Psicologia possa colaborar com essa transformação. Essa perspectiva busca uma prática preventiva e de promoção. apresentando formas de ação e intervenção baseadas na realidade e no contexto da escola e enfatizando a descentralização da análise da criança tomada individualmente. que envolva não apenas a relação educador(a)/ professor(a)/criança mas também as articulações entre os educadores e os demais profissionais. a Filosofia. o meio cultural. para a instituição escolar em sua totalidade. o serviço social.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. primando pelo aspecto inter-relacional e respeitando o contexto sociocultural da instituição e das pessoas com as quais se relaciona. e não o sujeitoescolar (o aluno). Diferenciam-se escola e creche essencialmente quanto ao sujeito. vem se instalando no debate acadêmico referente à educação infantil no Brasil. a política. nesse último caso. é a criança. a criar uma linguagem própria sobre as condições das crianças em seu interior bem como da configuração dos profissionais que nela vão atuar.

em período diuturno. p. aprendendo dessa forma a arbitrariedade e provisoriedade da hierarquia social existente na sociedade atual. a organização do espaço físico das instituições de educação infantil constitui-se em aspecto importante a ser pensado. devendo-se levar em consideração todas as dimensões humanas potencializadas nas crianças: o imaginário. institui que a educação infantil. 2004). a solidariedade. o lúdico. Colocados os pressupostos orientadores de nosso trabalho. familiar e social. suas cem linguagens. passando a ser um dever do Estado e um direito da família. Assim. entre outras (Faria & Palhares. juristas. (Faria & Palhares. sociólogos/as e antropólogos passaram a considerar que a educação e o cuidado de crianças pequenas constitui um bem individual. As crianças dessa faixa etária têm necessidade de alimentação. de etnias e culturas etc. combatendo as desigualdades. concomitantemente com a construção da sua identidade e autonomia. a educação infantil constitui-se na primeira etapa da educação básica. o atendimento à criança pequena através de creches e pré-escolas passou para o âmbito da prefeitura apenas Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . de classe. Em Campo Grande. carinho. de religiões. onde as crianças possam expressar. diverso das práticas assistencialistas e paternalistas que vigoraram desde a II Guerra Mundial (Lima. segurança e proteção. a educação infantil é responsabilidade do governo municipal. dando-lhes características que vão marcar sua identidade como instituições que são diferentes não só da família mas também da escola fundamental (Craidy & Kaercher. e que a educação e o cuidado da criança pequena devem compartilhados. o artístico. sem os quais não conseguiriam sobreviver. educadores/as. O referido documento defende a idéia de que as instituições de educação infantil possam verdadeiramente oportunizar (como dizem os italianos) ambientes de vida em contexto educativo. exercitando a tolerância (e não o conformismo). como em outros países. O contexto dos CEINFs Desde a LDB. MS. em 1996. elaborado por Rosemberg e Campos (COEDI/MEC. a educação infantil passou a ser reconhecida como um direito.). de 1996. que integra a educação básica com o ensino fundamental e médio. seja desenvolvida em creches (crianças de 0 a 3 anos) e préescolas (crianças de 4 a 6 anos). as crianças tomam contato com o mundo que as cerca. por meio das experiências diretas com as pessoas e as coisas desse mundo e com as formas de expressão que nele se manifestam. configurando um novo modelo de educação. o desenvolvimento da prática de estágio. ao mesmo tempo. A partir da Constituição de 1988. Nessa etapa. o afetivo e o cognitivo. 2004). assistentes sociais. enquanto especificidade infantil. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação). pela família e por uma instituição coletiva. de idade. 1995). 2009. Vem sendo delineada uma outra prática no que se refere ao cuidado e à educação da criança de 0 a 6 anos. nas mais diferentes intensidades. 29 (3). 2005). psicólogos/as. a cooperação e todos os comportamentos e valores de caráter coletivo. economistas. apresentaremos. ao mesmo tempo. tais dimensões estão contempladas no documento Critérios para atendimento em creches e préescolas que respeitem os direitos fundamentais da criança. 638-647 641 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima Após a II Guerra Mundial. 2005. sentido de pertencimento à comunidade local. 75) O fato de se considerar que a educação infantil envolve.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. também. Vem sendo delineada uma outra prática no que se refere ao cuidado e à educação da criança de 0 a 6 anos. atenção. e. e que sejam atendidas as necessidades da criança no tocante ao cuidado e à educação. no Brasil. preparando-se para as outras fases da vida que também são tão provisórias quanto a infância. a seguir. configurando um novo modelo de educação. cuidar e educar vai ter conseqüências profundas na organização das experiências que ocorrem nas creches e pré-escolas. tanto da criança quanto de sua família. 2001). diverso das práticas assistencialistas e paternalistas que vigoraram desde a II Guerra Mundial (Lima. Como nos lembram esses autores. conviver com todas as diferenças (de gênero. Nesse contexto.

3 são mantidos por convênio entre o Banco do Brasil. os alunos foram encaminhados aos CEINFs. Os Municípios recebem os recursos com base no número de alunos da educação infantil e do ensino fundamental. continuando. que cede funcionários. Optamos por organizar os 20 alunos em duplas e trios de maneira que. A SEMED elabora as diretrizes para atuação. cada dupla ou trio realizou o estágio em apenas um CEINF. vinculados à SETA (Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social). Desses CEINFs.000 crianças. pudessem realizar uma observação mais ampla de todos os aspectos inerentes ao propósito da organização. A discussão gira em torno do fato de a educação infantil estar vinculada ao âmbito da assistência para servir como forma de controle da pobreza. e os percentuais de receita que o compõem terão alcançado o patamar de 20% de contribuição (Brasil. professores/as e pesquisadores/ as. O debate sobre a vinculação da educação infantil à assistência social é antigo entre educadores/as. integram os CEINFs um total de 27 ONGs (organizações nãogovernamentais). Atualmente. Para funcionamento e acompanhamento pedagógico dessas instituições. segundo informação dessa Secretaria. O Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais) cobre financeiramente cerca de 2/3 das crianças atendidas pela SAS. assim. imprimindo a identidade de uma instituição para os pobres. que cede professores e outros funcionários. 26 vieram do Estado. Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . 2008). Somente a partir de 2009 é que o Fundo estará funcionando com todo o universo de alunos da educação básica pública presencial. material de limpeza e assessoria pedagógica. o SESI e a Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS). e não de uma instituição para todos. Em função da carga-horária reduzida. tendo feito cerca de 10 visitas. Os documentos que norteiam a ação da educação infantil na SAS. a Prefeitura de Campo Grande conta com 87 CEINFs. Parâmetros Curriculares Nacionais (1998). além de ceder os professores. Além disso. como deve ser. são: Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998). vinculados à Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS).PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. os antigos CEIs (Centros de Educação Infantil). tornando-se CEINFs. são os antigos CEIs. atendendo cerca de 12. 638-647 642 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima em 2007. 29 (3). foram transferidos para o âmbito da Prefeitura. A partir do governo de André Puccinelli. mas a proposta pedagógica e o acompanhamento ficam a cargo da SAS. Não foi possível constatar a existência de proposta pedagógica nos CEINFs. A discussão. no campo da assistência social. Parâmetros Básicos de Infra-Estrutura para Instituições de Educação Infantil (2006). Desses 87. Funcionam também em convênio com a Secretaria Municipal de Assistência Social. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (1998). juntos. existe um termo de gestão compartilhado entre Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS) e Secretaria Municipal de Educação (SEMED). 2009. A organização dos grupos de alunos/as Para o desenvolvimento do estágio. centra-se na autonomia de cada instituição educacional para elaborar e desenvolver seu projeto pedagógico e na necessidade de que esse projeto se comprometa com padrões de qualidade. apesar de a LDB estabelecer essa responsabilidade em 1996. Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil (2006). segundo os/as dirigentes. hoje. São constituídos fisicamente por dois tipos de construções: adaptadas e específicas para a atuação da educação infantil.

Para o desenvolvimento da observação. da figura da diretora. O objetivo era conhecer a instituição. Do cenário de dificuldades levantadas. a diretora foi entrevistada. Alguns aspectos foram levantados na fase de observação. Uma de nossas preocupações com o desenvolvimento do estágio foi a de levar os/as estudantes a estabelecerem ligações entre a teoria e a prática. a dinâmica de atuação. temperamento e atitudes. Considerando ser a primeira vez que os/as alunos/as do Curso de Psicologia da UFMS teriam contato. tipo de atividade (se dirigida. a necessidade dos professores/educadores era a de que essas crianças fossem atendidas individualmente pelos alunos. assim. entre outros aspectos. alimentação. número de crianças. passaram para o conhecimento dos documentos da instituição. na prática. 638-647 643 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima O espaço de realização da prática de estágio Cada uma das instituições apresenta suas especificidades. 29 (3). carência afetiva. o passo seguinte foi a observação. com a educação infantil. de suas características. a partir de 5 anos de idade. contemplando. dadas as peculiaridades de sua abrangência e localização. etc). As observações foram realizadas nos diversos níveis de atendimento (berçário e níveis I. instituição-família. as crianças de 0 a 5 anos de idade. que entende que a criança nessa faixa etária já deve estar freqüentando aquele nível de ensino. 2009. Por isso. professores e pesquisadores. II e III). Para isso. mesmo que a LDB considere que a educação infantil engloba as crianças de 0 a 6 anos. essa antecipação da escolarização da criança pequena pode trazer riscos para a sua aprendizagem e desenvolvimento (Oliveira. as crianças estão sendo encaminhadas para o ensino fundamental. tomando-o como ponto de partida para as discussões. espaço físico. ao entrar em contato com os CEINFs. etc. o primeiro passo foi conhecer sua realidade. Os alunos foram mobilizados. a organização do espaço. considerando que. a proposta pedagógica. iluminação. em um primeiro momento. em grande parte. as condições de trabalho dos(as) professores. escolhemos esse tema para maior aprofundamento na devolutiva com os professores/educadores.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. de criatividade. Em outras palavras. no sentido de adequação de seus comportamentos. 2002). suposição de maus tratos. uma delas mereceu maior preocupação de nossa parte: a relação estabelecida entre Psicologia e educação infantil. atendem crianças de baixo poder aquisitivo. por fim. hiperatividade. A dinâmica de trabalho depende. O que mais chamou a atenção é a grande ênfase no modelo clínico da Psicologia escolar. Após isso. Em seguida. etc). a disposição em receber alunos/as de Psicologia. indisciplina. as considerações pessoais sobre a observação realizada. Na opinião de especialistas. isto é. condições materiais de realização da atividade (utilização de material pedagógico. sucata. criança/criança. orientamos os/as alunos/as para que fizessem uso de um protocolo de observação. de modo a garantir que fossem consideradas algumas dimensões: a interação professor/educador(a)/ criança. Isso está ocorrendo em Campo Grande por força de liminar de juiz de Direito. rotina de trabalho e. a lista de espera das crianças e o respeito ao direito da família pela creche e pré-escola. Em geral. É como se a função do psicólogo escolar fosse consertar o que se Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . para darem conta de problemas comportamentais apresentados pelas crianças – segundo os/as professores/as e educadores/as. No decorrer das observações. os/as estudantes destacaram temáticas que pudessem propiciar uma revisão de literatura. fundamentando-se continuamente. livre. de forma a ampliar seus conhecimentos e também a adquirir consciência de sua importância para a aprendizagem e o desenvolvimento infantil.

a visão é a de que a função da Psicologia na escola é elaborar diagnósticos das crianças e tratá-las. entendido de maneira muito restrita. que coloca como ação básica análise. 2002). Souza (1996) argumenta sobre a importância do brincar e da linguagem para o desenvolvimento da criança. 2003). etc. no Brasil. Porém. enquanto. Essa forma de entendimento da Psicologia vai corresponder às expectativas dos CEINFs. para adequá-las.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. independentemente da relação com o mundo cultural que o constitui. 638-647 644 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima encontra “estragado” no aluno (neste caso. a agressividade. é algo oposto aos interesses naturais do homem. Nessa perspectiva. segundo Bock. de reflexão junto ao professor e à criança sobre as relações estereotipadas existentes na instituição. às vezes. a movimentação exacerbada. tais como: cozinha. principalmente os brinquedos. fundamentadas em crenças que colocam o distúrbio de comportamento da criança como ponto central. 2003). em geral. Além disso. Bock. que atuam nas diversas atividades. Isso mostra a relutância em oferecer atendimento à criança de 0 a 3 anos. é a de uma atuação voltada para a função e o trabalho clínico. por exemplo. Essa Psicologia. A Psicologia assim concebida abandona qualquer vínculo mais aprofundado com a realidade social e cultural para considerar o homem de forma isolada. limpeza. etc. orientada primordialmente para o desenvolvimento cognitivo. A tendência histórica da Psicologia. que coloca como ação básica análise. geralmente. expressam uma visão patológica com relação a esses comportamentos. muitas atividades planejadas não podem ser desenvolvidas por falta de espaço físico. talvez por desconhecerem o desenvolvimento infantil. de forma individualizada (Azevedo. o que faz com que as crianças permaneçam por muito tempo em frente à televisão. Outro aspecto levantado é a diferença de atendimento entre creche e pré-escola. é a de uma atuação voltada para a função e o trabalho clínico. a sociedade surge como se se contrapusesse aos movimentos naturais do ser humano. no Brasil. diagnóstico e tratamento dos problemas de caráter emocional. 2000. de forma individualizada (Azevedo. ela normalmente mostra no jogo um comportamento mais sofisticado do que aquele que ela apresenta na vida diária. No jogo. Em outras palavras. com a sexualidade. Os professores/educadores também manifestaram a insatisfação com os baixos salários. a criança demonstra a consciência que possui das regras e dos valores de convívio com a realidade. Em geral. A diferença é estabelecida na medida em que há disponibilidade de professores com curso superior para atender o nível de pré-escola (4 e 5 anos de idade). no nível da creche (0 a 3 anos). se desenvolveu e se fundamentou em concepções universalizantes e naturalizantes da subjetividade. são educadores/ as de nível médio. em geral. ou seja. 2009. de espaço físico e de um número maior de professores/educadores para o desenvolvimento de atividades com as crianças. daí a utilização freqüente do senso comum. Bock. ou. a falta de material pedagógico. Merece ainda ser citada a dificuldade de professores/educadores em lidarem com a expressão de afetividade das crianças. a criança). Por exemplo. 29 (3). a criança reelabora-as criativamente. Os professores/educadores. Quando a criança brinca. em vez de realizar um trabalho de desconstrução de representações. mais do que se confrontar e reproduzir essas regras. geralmente. A tendência histórica da Psicologia. 2000. o material utilizado é a sucata. o que tem sido denunciado por pesquisadores (Rosemberg. a função do afeto nesse processo. Oliveira (2002) chama a atenção para o fato de creches e pré-escolas estarem preocupadas com a construção de uma proposta pedagógica que julgam progressista. diagnóstico e tratamento dos problemas de caráter emocional. combinando-as entre si e edificando com Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . a teimosia. auxiliares. de material e de pessoal. negando-se.

a devolutiva pretendeu. em particular. etc. a mãe que não cuida do filho é culpabilizada pela ausência. as mães não cuidam das crianças como elas: as crianças vêm sujas. 1991). mobilizar professores/ educadores e diretora para a reflexão. a re-significação e para a produção de novos sentidos sobre a Psicologia em geral e. acerca da função da Psicologia na escola. transformá-la. Esses comportamentos são o suporte da estruturação dos valores morais. mais tarde. isto é. Nesse sentido. ao mesmo tempo em que temos que considerar as condições materiais que as instituições de Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . Enfim. 1996). com piolho. foi elaborada a devolutiva para os professores/educadores e diretora. não podendo ser considerada uma “boa mãe”. (p. Pensamos que. Bloch e Buisson (1998) afirmam que essa relação complicada é resultado da norma social da “boa mãe”. 638-647 645 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima elas novas possibilidades de interpretação e representação do real. sob pena de estar causando prejuízo ao desenvolvimento emocional da criança. éticos. isto é. de maneira que pudessem conhecer alguns dos pressupostos que fundamentaram o trabalho sistematizado pelo grupo. Por outro lado. irão modelar suas possibilidades de subjetividade diante do contexto social e cultural em que vive (Souza. com isso. o objetivo foi o de deixar nossa contribuição aos professores/as. nesse sentido. 29 (3). afetivos e cognitivos que. há uma culpabilização das mães por não cuidarem dos filhos. elas próprias. Como a criança aprende e se desenvolve? Como elabora o pensamento? Qual o papel da linguagem no desenvolvimento? Qual seria a direção da educação? Qual a função do/a professor/a? Para onde a educação deve se dirigir? Quem decide o que é bom para a criança? Quais os valores que devem nortear essa ação? A rivalidade entre mães e educadores/as é outro fator evidenciado. Ao final do estágio. a Psicologia escolar e educacional. as mães que não cuidam. da própria instituição escolar.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. existe no ideário feminino a crença de que a mãe deve permanecer em casa inteiramente à disposição dos filhos. esse comportamento parece ter como conseqüência a ambigüidade de ambas em relação ao desempenho de seus próprios papéis. falam que não fazem nada o dia inteiro. dos Dessa forma. cujo conteúdo o professor/educador está desenvolvendo. Para Mattioli (1989). mas que dificilmente transparece na vida diária. elas dizem que sabem que os pais reclamam delas. principalmente. Vigotski (1984) chamou de zona de desenvolvimento proximal o comportamento que a criança evidencia no jogo. com roupa sem lavar. de se conhecer e de conhecer e organizar a realidade e. Por outro lado. A rivalidade tanto das educadoras para com as mães quanto das mães para com as educadoras é um assunto bastante discutido na literatura desde a segunda metade da década de 1980 (Haddad. que teve como objetivo possibilitar a reflexão sobre as práticas no âmbito de uma instituição escolar que atende crianças pequenas. 2009. isto é. 53) filhos rivalizam com as cuidadoras por medo de perderem o amor dos filhos. Considerações finais A primeira conclusão a que poderíamos chegar é sobre a necessidade de intervenção junto aos professores/educadores no sentido de sua formação. e que vai fazer com que as crianças ampliem a capacidade de pensar. Para as professoras/ educadoras.

ampliando outros e. muitas vezes. De acordo com Facci (2008). 638-647 646 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima educação infantil ainda enfrentam. Isso indica. Assim. nem sempre explicitadas. na escola (Patto. Considerar uma intervenção junto a professores significa considerar a totalidade institucional e. levar em conta as condições materiais inclui levar em consideração a existência A Psicologia pode contribuir com tal tarefa. muitas vezes. apesar das não recentes críticas a respeito da relação entre a Psicologia e a educação. só faz sentido o trabalho do psicólogo na escola se ele tiver consciência de que vai colaborar na função da escola. 2003. que é levar o aluno a se apropriar do conhecimento científico produzido na humanidade. o projeto que chega na escola é um projeto de sociedade. adquirindo novos conhecimentos. de material e organização do espaço físico. não podemos deixar de lado o fato de que as práticas exercidas pelos professores/educadores têm como elemento constitutivo concepções. 2006). uma vez que se tratou da primeira experiência de estágio supervisionado do curso de Psicologia em instituição de educação infantil. ela pode desempenhar um papel diferente. refletir sobre a própria sociedade. principalmente. Segundo Leão (2008). a função do psicólogo colaborou para que reelaborássemos nossas A realização dessa experiência foi vista por nós como um momento de aprendizagem coletiva. com crianças de 0 a 6 anos de idade. observamos que os/as professores/as concebem a Psicologia como um instrumento de ajustamento ao meio. ou seja. a necessidade de repensar a organização espacial comumente adotada entre nós. classificando os indivíduos em mais aptos ou menos aptos. Temos a certeza de que todos/as os/ as envolvidos/as puderam beneficiar-se. que. assim como favorecendo a adaptação dos indivíduos na sociedade. Nesse sentido. de pessoal e de espaço físico. Urt. deve procurar entender como o professor/a está ensinando e como o aluno/a está aprendendo. do que se espera da instituição escolar e do aluno. 2009. a criança pequena.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. Todos nós fizemos descobertas que. da casa e do hospital. Urt. 2000). do que é educação. de vez que os fatos não são excludentes. Contudo. qual a relação entre o desenvolvimento e a aprendizagem. Vivenciam o processo de “patologização” das questões educacionais: o psicólogo é visto como um especialista em adaptação: do desvio à norma. 1990. 29 (3). lidar com o sofrimento daquele que não consegue aprender. é. ao longo do processo. no caso aqui. mais do que isso. como argumentam Faria e Palhares (2005). da fantasia à realidade. temos que considerar também a formação do professor/educador. Por fim. Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . já que se desenvolveu como ciência conforme a vida social foi exigindo esse tipo de saber e fazer (Bock. contribuindo para a mudança qualitativa do dia a dia das crianças. não abrange todas as dimensões humanas e nem atende todos os quesitos imprescindíveis para a educação e o cuidado das crianças pequenas em espaço coletivo. vemos que na educação infantil se repete a visão de que a função do psicólogo é medir habilidades e diagnosticar os alunos. Enfim. assim como mostrar ao professor/a como se dá a aprendizagem do/a aluno/a. ou seja. Outra conclusão a que poderíamos chegar é que. inspirada em um único tipo de escola/sala de aula. ações. Apesar de essa ciência ter legitimado a desigualdade social ao recorrer ao discurso das diferenças individuais. tais como falta de material.

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