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Estágio Supervisionado
em Psicologia Escolar:
Desmistificando o Modelo
Clínico1
Supervised Training Course in School Psychology:
“Demystifying” the Clinical Model
Prácticas Supervisadas en Psicología Escolar:
Desmitificando el Modelo Clínico

Maria de Fátima
Evangelista Mendonça Lima

Experiência

Universidade Federal de
Mato Grosso do Sul

PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2009, 29 (3), 638-647

MS/ MT. de aproximadamente 2h. en guarderías y pre-escuelas. 29 (3). do Curso de Psicologia da UFMS. o Estágio II. in day-care centers and nursery schools. 2009. Federal University of Mato Grosso do Sul. desarrollada en unidades de CEINFs (Centros de Educación Infantil) de Campo Grande. Palavras-chave: Estágio supervisionado. School/education psychology. integrar a teoria e a prática através de vivência de experiência o mais próximo possível de situações reais e propiciar maior contato com a área da educação. It mainly points the presence of crystallized behaviors in relation to the role of the school psychologist. foram: (1) propiciar a discussão sobre o espaço institucional da educação infantil no qual se insere o profissional de Psicologia e (2) favorecer o reconhecimento da especificidade de atuação psicológica e a busca do planejamento da intervenção da Psicologia escolar no campo da educação infantil. The training had as objectives: knowledge and analysis of the institucional space of infant education. as well as the main challenges that are present in a coherent and consistent educational attendance to the child up to 6 years old. assim como os principais desafios que se apresentam no caminho rumo a um atendimento educacional consistente e coerente à criança de 0 a 6 anos de idade. Infant education. desenvolvida em unidades de CEINFs (Centros de Educação Infantil) de Campo Grande. 102 horas de duração (anual). o reconhecimento da especificidade da atuação psicológica e o planejamento da intervenção. O Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar. os objetivos do Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar II. as developed in the CEINFS (Centers for Infant Education) of Campo Grande. MS. The practical period of training was developed by weekly visits to the institutions of approximately 2:00 h and weekly supervision of 4:00 h lesson. MS. y supervisión semanal de 4h clase. MS. Keywords: Supervised training. é integrante da estrutura curricular e tem como objetivos: propiciar a formação técnico-profissional. em creches e pré-escolas. em Campo Grande. MS. Especificamente. e supervisão semanal de 4h aula. Educación infantil. O estágio teve como objetivos: o conhecimento e a análise do espaço institucional de educação infantil.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. tendo o Estágio I 34 horas de duração(semestral). 34 horas (semestral). “a contribuição da Psicologia para a educação infantil deve Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . La práctica de las prácticas fue desarrollada por medio de visitas semanales a las instituciones. Psicología escolar/educacional. Segundo Urt. Palabras clave: Prácticas supervisadas. el reconocimiento de la especificidad de la actuación psicológica y la planificación de la intervención. de aproximadamente 2h. Psicologia escolar/educacional. O relato aponta principalmente a presença de comportamentos cristalizados quanto ao papel do psicólogo escolar. Trabalho apresentado no I Encontro Regional de Psicologia Escolar e Educacional. Sabemos que há conflitos e tensões na aproximação entre a Psicologia e a educação. é desenvolvido no espaço de dois anos. 1 O referido estágio supervisionado. 638-647 639 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima Resumo: O objetivo deste relato é apresentar a prática de Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar da UFMS. composto de três fases. Pensar nesses objetivos é entender que a Psicologia pode oferecer seus conhecimentos para a área da educação em geral e da educação infantil em particular. Resumen: El objetivo de este relato es presentar la práctica de Cursillo Supervisado en Psicología Escolar de la UFMS. Abstract: The aim of this report is to present the practice of supervised training in educational psychology at the UFMS. A prática de estágio foi desenvolvida por meio de visitas semanais às instituições. mas isso não implica negação da participação e da contribuição da ciência psicológica para a educação. promovido pelo Conselho Regional de Psicologia – 14ª Região. El relato señala principalmente la presencia de comportamientos cristalizados en cuanto al papel del psicólogo escolar. desenvolvido em 34 horas. Las prácticas tuvieron como objetivos: el conocimiento y el análisis del espacio institucional de educación infantil. e o Estágio III. atingindo pais. recognition of the specificity of the activity of psychologists and the planning of interventions. Educação infantil. crianças e profissionais que ali atuam. así como los principales desafíos que se presentan en el camino rumbo a un servicio educacional consistente y coherente al niño de 0 a 6 años de edad.

O desenvolvimento da criança é o processo de apropriação da evolução histórica da humanidade. que. as artes. e não o sujeitoescolar (o aluno). atuando de forma conjunta com outros profissionais. o homem se transforma de biológico em histórico-cultural. 638-647 640 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima centrar-se em uma base primordial: é preciso conhecer quem aprende e como se desenvolve” (p. nesse sentido. seria um educador. (p. 2006). isto é. que abrange a relação criança-instituiçãofamília-sociedade. seja da aprendizagem. seja do desenvolvimento global da criança. da instituição creche/pré-escola e da sociedade. a política. primando pelo aspecto inter-relacional e respeitando o contexto sociocultural da instituição e das pessoas com as quais se relaciona. procurando fazer uma conexão com os determinantes sociais e estimulando a interface com a Sociologia. a Pedagogia. para a instituição escolar em sua totalidade. ao contrário daquelas (que têm se constituído historicamente como uma pedagogia escolar). deve traduzir as reflexões conjuntas em ações concretas a serem assumidas pelos envolvidos no processo ensino-aprendizagem. É uma atuação que envolve a instituição creche/ pré-escola em sua totalidade. passa.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. 2006). pelas condições concretas que possibilitam interações e relações possíveis (Urt. pouco a pouco. quanto à definição de suas funções. seja dos conteúdos transmitidos. também. Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . Assumimos esse enfoque da Psicologia na instituição educacional creche/pré-escola. Trata-se de um modelo de estágio interacional. segundo Rocha (1999). suas funções aqui se encontram em processo de constituição. a Psicologia. a História. Defendemos uma atuação abrangente. que envolva não apenas a relação educador(a)/ professor(a)/criança mas também as articulações entre os educadores e os demais profissionais. no qual a criança vive. O psicólogo escolar. Uma Pedagogia da infância e da educação infantil necessita considerar outros níveis de abordagem de seu objeto: a criança em seu próprio mundo. apresentando formas de ação e intervenção baseadas na realidade e no contexto da escola e enfatizando a descentralização da análise da criança tomada individualmente. é que lhe oferece as formas de descobrir e organizar o real. o que significa dizer que os sistemas de representação da realidade vêm do social (Souza. Nessa perspectiva vigotskiana. 50) Acreditamos que a Psicologia possa colaborar com essa transformação. Nesse modelo. organizada. 2003). etc. se tiver o comprometimento de pôr à vista o aparente e desocultar o real. 13). Mantém-se a passagem da infância de um âmbito familiar para um institucional. Além do mais. a creche. vem se instalando no debate acadêmico referente à educação infantil no Brasil. Essa perspectiva busca uma prática preventiva e de promoção. não perdendo de vista os conteúdos veiculados com as experiências das crianças e com a análise da família. Assim. Como nos mostra Rocha (1999). de projetar a educação desses novos sujeitos sociais. é possível pensar em orientações para a educação da criança de 0 a 6 anos de idade diferentes dos parâmetros pedagógicos estabelecidos a partir da infância em situação escolar. 29 (3). uma vez que se ocupa. A partir da produção acadêmica produzida no Brasil. Diferenciam-se escola e creche essencialmente quanto ao sujeito. O desenvolvimento da psique de uma criança é determinado diretamente pela sua própria vida. fundamentalmente. de conhecer a si mesma e o meio que a cerca e de operar sobre ele. a Filosofia. que. é a criança. a criar uma linguagem própria sobre as condições das crianças em seu interior bem como da configuração dos profissionais que nela vão atuar. O rompimento com algumas concepções cristalizadas é um dos caminhos (Urt. o meio cultural. que se realiza através das trocas estabelecidas com os adultos nas condições de ensino. a biologia. nesse último caso. 2009. co-responsabilizando-se pela criança. a Antropologia. e. o serviço social.

2004). de etnias e culturas etc. MS. e que sejam atendidas as necessidades da criança no tocante ao cuidado e à educação. o artístico. sentido de pertencimento à comunidade local. sem os quais não conseguiriam sobreviver. o desenvolvimento da prática de estágio. As crianças dessa faixa etária têm necessidade de alimentação. concomitantemente com a construção da sua identidade e autonomia. a educação infantil constitui-se na primeira etapa da educação básica. também. ao mesmo tempo. Assim. devendo-se levar em consideração todas as dimensões humanas potencializadas nas crianças: o imaginário. 2009. familiar e social. A partir da Constituição de 1988. o atendimento à criança pequena através de creches e pré-escolas passou para o âmbito da prefeitura apenas Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . configurando um novo modelo de educação. (Faria & Palhares. Vem sendo delineada uma outra prática no que se refere ao cuidado e à educação da criança de 0 a 6 anos. entre outras (Faria & Palhares. diverso das práticas assistencialistas e paternalistas que vigoraram desde a II Guerra Mundial (Lima. 2001). a cooperação e todos os comportamentos e valores de caráter coletivo. suas cem linguagens. 2005). seja desenvolvida em creches (crianças de 0 a 3 anos) e préescolas (crianças de 4 a 6 anos). de religiões. tais dimensões estão contempladas no documento Critérios para atendimento em creches e préescolas que respeitem os direitos fundamentais da criança.). Nessa etapa. O referido documento defende a idéia de que as instituições de educação infantil possam verdadeiramente oportunizar (como dizem os italianos) ambientes de vida em contexto educativo. 29 (3). Nesse contexto. conviver com todas as diferenças (de gênero. passando a ser um dever do Estado e um direito da família. p. que integra a educação básica com o ensino fundamental e médio. e. economistas. o afetivo e o cognitivo. cuidar e educar vai ter conseqüências profundas na organização das experiências que ocorrem nas creches e pré-escolas. A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação). a organização do espaço físico das instituições de educação infantil constitui-se em aspecto importante a ser pensado. de 1996. Colocados os pressupostos orientadores de nosso trabalho. as crianças tomam contato com o mundo que as cerca. carinho. em 1996. educadores/as. dando-lhes características que vão marcar sua identidade como instituições que são diferentes não só da família mas também da escola fundamental (Craidy & Kaercher. tanto da criança quanto de sua família. apresentaremos. enquanto especificidade infantil. Vem sendo delineada uma outra prática no que se refere ao cuidado e à educação da criança de 0 a 6 anos. segurança e proteção. onde as crianças possam expressar. Em Campo Grande. 2005. 75) O fato de se considerar que a educação infantil envolve. de idade. diverso das práticas assistencialistas e paternalistas que vigoraram desde a II Guerra Mundial (Lima. preparando-se para as outras fases da vida que também são tão provisórias quanto a infância. assistentes sociais. elaborado por Rosemberg e Campos (COEDI/MEC. psicólogos/as. Como nos lembram esses autores. sociólogos/as e antropólogos passaram a considerar que a educação e o cuidado de crianças pequenas constitui um bem individual. por meio das experiências diretas com as pessoas e as coisas desse mundo e com as formas de expressão que nele se manifestam. e que a educação e o cuidado da criança pequena devem compartilhados. a educação infantil passou a ser reconhecida como um direito. em período diuturno. atenção. pela família e por uma instituição coletiva. a seguir.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. institui que a educação infantil. como em outros países. O contexto dos CEINFs Desde a LDB. exercitando a tolerância (e não o conformismo). configurando um novo modelo de educação. nas mais diferentes intensidades. o lúdico. 2004). ao mesmo tempo. a educação infantil é responsabilidade do governo municipal. juristas. de classe. aprendendo dessa forma a arbitrariedade e provisoriedade da hierarquia social existente na sociedade atual. no Brasil. a solidariedade. combatendo as desigualdades. 638-647 641 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima Após a II Guerra Mundial. 1995).

que cede professores e outros funcionários.000 crianças. vinculados à SETA (Secretaria de Estado de Trabalho e Assistência Social). 26 vieram do Estado. Os Municípios recebem os recursos com base no número de alunos da educação infantil e do ensino fundamental. hoje. 3 são mantidos por convênio entre o Banco do Brasil. o SESI e a Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS). cada dupla ou trio realizou o estágio em apenas um CEINF. O Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais) cobre financeiramente cerca de 2/3 das crianças atendidas pela SAS. os antigos CEIs (Centros de Educação Infantil). imprimindo a identidade de uma instituição para os pobres. a Prefeitura de Campo Grande conta com 87 CEINFs. os alunos foram encaminhados aos CEINFs. vinculados à Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS). Funcionam também em convênio com a Secretaria Municipal de Assistência Social. continuando. Parâmetros Curriculares Nacionais (1998). O debate sobre a vinculação da educação infantil à assistência social é antigo entre educadores/as. São constituídos fisicamente por dois tipos de construções: adaptadas e específicas para a atuação da educação infantil. Em função da carga-horária reduzida. Parâmetros Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil (2006). Desses 87. A SEMED elabora as diretrizes para atuação. Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . são: Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998). segundo os/as dirigentes. Somente a partir de 2009 é que o Fundo estará funcionando com todo o universo de alunos da educação básica pública presencial. pudessem realizar uma observação mais ampla de todos os aspectos inerentes ao propósito da organização. 638-647 642 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima em 2007. material de limpeza e assessoria pedagógica. existe um termo de gestão compartilhado entre Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS) e Secretaria Municipal de Educação (SEMED). tendo feito cerca de 10 visitas. Parâmetros Básicos de Infra-Estrutura para Instituições de Educação Infantil (2006). tornando-se CEINFs. segundo informação dessa Secretaria. como deve ser. professores/as e pesquisadores/ as. juntos. assim. e os percentuais de receita que o compõem terão alcançado o patamar de 20% de contribuição (Brasil. no campo da assistência social. apesar de a LDB estabelecer essa responsabilidade em 1996. 2009. 2008). atendendo cerca de 12. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (1998). são os antigos CEIs. Optamos por organizar os 20 alunos em duplas e trios de maneira que. centra-se na autonomia de cada instituição educacional para elaborar e desenvolver seu projeto pedagógico e na necessidade de que esse projeto se comprometa com padrões de qualidade. Além disso. Para funcionamento e acompanhamento pedagógico dessas instituições. Desses CEINFs. mas a proposta pedagógica e o acompanhamento ficam a cargo da SAS. 29 (3). foram transferidos para o âmbito da Prefeitura.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. A discussão gira em torno do fato de a educação infantil estar vinculada ao âmbito da assistência para servir como forma de controle da pobreza. e não de uma instituição para todos. integram os CEINFs um total de 27 ONGs (organizações nãogovernamentais). que cede funcionários. Não foi possível constatar a existência de proposta pedagógica nos CEINFs. A partir do governo de André Puccinelli. A discussão. além de ceder os professores. Atualmente. Os documentos que norteiam a ação da educação infantil na SAS. A organização dos grupos de alunos/as Para o desenvolvimento do estágio.

professores e pesquisadores. Alguns aspectos foram levantados na fase de observação. por fim. escolhemos esse tema para maior aprofundamento na devolutiva com os professores/educadores. de suas características. Em geral. ao entrar em contato com os CEINFs. da figura da diretora. com a educação infantil. o primeiro passo foi conhecer sua realidade. 638-647 643 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima O espaço de realização da prática de estágio Cada uma das instituições apresenta suas especificidades. as crianças estão sendo encaminhadas para o ensino fundamental. Em outras palavras. de modo a garantir que fossem consideradas algumas dimensões: a interação professor/educador(a)/ criança. a lista de espera das crianças e o respeito ao direito da família pela creche e pré-escola. Para isso. as condições de trabalho dos(as) professores. no sentido de adequação de seus comportamentos. passaram para o conhecimento dos documentos da instituição. as considerações pessoais sobre a observação realizada. Para o desenvolvimento da observação. em um primeiro momento. a proposta pedagógica. dadas as peculiaridades de sua abrangência e localização. o passo seguinte foi a observação. a necessidade dos professores/educadores era a de que essas crianças fossem atendidas individualmente pelos alunos. livre. Considerando ser a primeira vez que os/as alunos/as do Curso de Psicologia da UFMS teriam contato. atendem crianças de baixo poder aquisitivo. O que mais chamou a atenção é a grande ênfase no modelo clínico da Psicologia escolar. Do cenário de dificuldades levantadas. temperamento e atitudes. rotina de trabalho e. Em seguida. a diretora foi entrevistada. Após isso. hiperatividade. isto é. carência afetiva. as crianças de 0 a 5 anos de idade. Na opinião de especialistas. Por isso. espaço físico. os/as estudantes destacaram temáticas que pudessem propiciar uma revisão de literatura. sucata. Uma de nossas preocupações com o desenvolvimento do estágio foi a de levar os/as estudantes a estabelecerem ligações entre a teoria e a prática. uma delas mereceu maior preocupação de nossa parte: a relação estabelecida entre Psicologia e educação infantil. a dinâmica de atuação. 2002). etc. de criatividade. No decorrer das observações. número de crianças. de forma a ampliar seus conhecimentos e também a adquirir consciência de sua importância para a aprendizagem e o desenvolvimento infantil. instituição-família. 2009. iluminação. II e III). suposição de maus tratos. em grande parte. a disposição em receber alunos/as de Psicologia. condições materiais de realização da atividade (utilização de material pedagógico. a partir de 5 anos de idade. para darem conta de problemas comportamentais apresentados pelas crianças – segundo os/as professores/as e educadores/as. na prática. O objetivo era conhecer a instituição. tomando-o como ponto de partida para as discussões. A dinâmica de trabalho depende. tipo de atividade (se dirigida. assim. a organização do espaço. indisciplina. Isso está ocorrendo em Campo Grande por força de liminar de juiz de Direito. considerando que. fundamentando-se continuamente. criança/criança. etc). etc). As observações foram realizadas nos diversos níveis de atendimento (berçário e níveis I. É como se a função do psicólogo escolar fosse consertar o que se Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . mesmo que a LDB considere que a educação infantil engloba as crianças de 0 a 6 anos. entre outros aspectos. 29 (3). Os alunos foram mobilizados. contemplando. que entende que a criança nessa faixa etária já deve estar freqüentando aquele nível de ensino. orientamos os/as alunos/as para que fizessem uso de um protocolo de observação. alimentação.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. essa antecipação da escolarização da criança pequena pode trazer riscos para a sua aprendizagem e desenvolvimento (Oliveira.

enquanto. 2002). de material e de pessoal. 2003). o que faz com que as crianças permaneçam por muito tempo em frente à televisão. Além disso. ela normalmente mostra no jogo um comportamento mais sofisticado do que aquele que ela apresenta na vida diária. a movimentação exacerbada. etc. Essa forma de entendimento da Psicologia vai corresponder às expectativas dos CEINFs. diagnóstico e tratamento dos problemas de caráter emocional. de forma individualizada (Azevedo. limpeza. é algo oposto aos interesses naturais do homem. fundamentadas em crenças que colocam o distúrbio de comportamento da criança como ponto central. no Brasil. A tendência histórica da Psicologia. é a de uma atuação voltada para a função e o trabalho clínico. 2000. Quando a criança brinca.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. A Psicologia assim concebida abandona qualquer vínculo mais aprofundado com a realidade social e cultural para considerar o homem de forma isolada. 29 (3). a criança reelabora-as criativamente. independentemente da relação com o mundo cultural que o constitui. Nessa perspectiva. Os professores/educadores também manifestaram a insatisfação com os baixos salários. que atuam nas diversas atividades. Bock. Outro aspecto levantado é a diferença de atendimento entre creche e pré-escola. combinando-as entre si e edificando com Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . Os professores/educadores. a agressividade. A tendência histórica da Psicologia. o material utilizado é a sucata. que coloca como ação básica análise. a criança demonstra a consciência que possui das regras e dos valores de convívio com a realidade. talvez por desconhecerem o desenvolvimento infantil. o que tem sido denunciado por pesquisadores (Rosemberg. em geral. ou. segundo Bock. 2003). principalmente os brinquedos. A diferença é estabelecida na medida em que há disponibilidade de professores com curso superior para atender o nível de pré-escola (4 e 5 anos de idade). são educadores/ as de nível médio. ou seja. diagnóstico e tratamento dos problemas de caráter emocional. de forma individualizada (Azevedo. daí a utilização freqüente do senso comum. Bock. entendido de maneira muito restrita. é a de uma atuação voltada para a função e o trabalho clínico. de reflexão junto ao professor e à criança sobre as relações estereotipadas existentes na instituição. Isso mostra a relutância em oferecer atendimento à criança de 0 a 3 anos. para adequá-las. auxiliares. 2000. expressam uma visão patológica com relação a esses comportamentos. no nível da creche (0 a 3 anos). geralmente. Merece ainda ser citada a dificuldade de professores/educadores em lidarem com a expressão de afetividade das crianças. em geral. Essa Psicologia. no Brasil. Souza (1996) argumenta sobre a importância do brincar e da linguagem para o desenvolvimento da criança. mais do que se confrontar e reproduzir essas regras. às vezes. em vez de realizar um trabalho de desconstrução de representações. com a sexualidade. No jogo. geralmente. Por exemplo. que coloca como ação básica análise. a visão é a de que a função da Psicologia na escola é elaborar diagnósticos das crianças e tratá-las. Em outras palavras. Oliveira (2002) chama a atenção para o fato de creches e pré-escolas estarem preocupadas com a construção de uma proposta pedagógica que julgam progressista. a falta de material pedagógico. a sociedade surge como se se contrapusesse aos movimentos naturais do ser humano. se desenvolveu e se fundamentou em concepções universalizantes e naturalizantes da subjetividade. Em geral. negando-se. a teimosia. orientada primordialmente para o desenvolvimento cognitivo. etc. a função do afeto nesse processo. por exemplo. de espaço físico e de um número maior de professores/educadores para o desenvolvimento de atividades com as crianças. muitas atividades planejadas não podem ser desenvolvidas por falta de espaço físico. a criança). tais como: cozinha. 2009. Porém. 638-647 644 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima encontra “estragado” no aluno (neste caso.

isto é. foi elaborada a devolutiva para os professores/educadores e diretora. que teve como objetivo possibilitar a reflexão sobre as práticas no âmbito de uma instituição escolar que atende crianças pequenas. transformá-la. acerca da função da Psicologia na escola. a mãe que não cuida do filho é culpabilizada pela ausência. principalmente. (p. existe no ideário feminino a crença de que a mãe deve permanecer em casa inteiramente à disposição dos filhos. Vigotski (1984) chamou de zona de desenvolvimento proximal o comportamento que a criança evidencia no jogo. 29 (3). não podendo ser considerada uma “boa mãe”. Para as professoras/ educadoras. irão modelar suas possibilidades de subjetividade diante do contexto social e cultural em que vive (Souza. de maneira que pudessem conhecer alguns dos pressupostos que fundamentaram o trabalho sistematizado pelo grupo. a re-significação e para a produção de novos sentidos sobre a Psicologia em geral e. a Psicologia escolar e educacional. Enfim. sob pena de estar causando prejuízo ao desenvolvimento emocional da criança. 1991). as mães que não cuidam. Por outro lado. mas que dificilmente transparece na vida diária. Para Mattioli (1989). 638-647 645 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima elas novas possibilidades de interpretação e representação do real. ao mesmo tempo em que temos que considerar as condições materiais que as instituições de Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . Nesse sentido. nesse sentido. Por outro lado. isto é. falam que não fazem nada o dia inteiro.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. mais tarde. da própria instituição escolar. Ao final do estágio. o objetivo foi o de deixar nossa contribuição aos professores/as. isto é. em particular. elas dizem que sabem que os pais reclamam delas. esse comportamento parece ter como conseqüência a ambigüidade de ambas em relação ao desempenho de seus próprios papéis. de se conhecer e de conhecer e organizar a realidade e. A rivalidade tanto das educadoras para com as mães quanto das mães para com as educadoras é um assunto bastante discutido na literatura desde a segunda metade da década de 1980 (Haddad. com isso. Considerações finais A primeira conclusão a que poderíamos chegar é sobre a necessidade de intervenção junto aos professores/educadores no sentido de sua formação. éticos. com piolho. etc. 1996). 2009. dos Dessa forma. Bloch e Buisson (1998) afirmam que essa relação complicada é resultado da norma social da “boa mãe”. as mães não cuidam das crianças como elas: as crianças vêm sujas. e que vai fazer com que as crianças ampliem a capacidade de pensar. mobilizar professores/ educadores e diretora para a reflexão. 53) filhos rivalizam com as cuidadoras por medo de perderem o amor dos filhos. afetivos e cognitivos que. cujo conteúdo o professor/educador está desenvolvendo. a devolutiva pretendeu. elas próprias. com roupa sem lavar. Como a criança aprende e se desenvolve? Como elabora o pensamento? Qual o papel da linguagem no desenvolvimento? Qual seria a direção da educação? Qual a função do/a professor/a? Para onde a educação deve se dirigir? Quem decide o que é bom para a criança? Quais os valores que devem nortear essa ação? A rivalidade entre mães e educadores/as é outro fator evidenciado. Esses comportamentos são o suporte da estruturação dos valores morais. Pensamos que. há uma culpabilização das mães por não cuidarem dos filhos.

ela pode desempenhar um papel diferente. Nesse sentido. só faz sentido o trabalho do psicólogo na escola se ele tiver consciência de que vai colaborar na função da escola. principalmente. mais do que isso. Urt. do que é educação. como argumentam Faria e Palhares (2005). assim como favorecendo a adaptação dos indivíduos na sociedade. Por fim. a função do psicólogo colaborou para que reelaborássemos nossas A realização dessa experiência foi vista por nós como um momento de aprendizagem coletiva. observamos que os/as professores/as concebem a Psicologia como um instrumento de ajustamento ao meio. Temos a certeza de que todos/as os/ as envolvidos/as puderam beneficiar-se. não abrange todas as dimensões humanas e nem atende todos os quesitos imprescindíveis para a educação e o cuidado das crianças pequenas em espaço coletivo.PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO. Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar: Desmistificando o Modelo Clínico . não podemos deixar de lado o fato de que as práticas exercidas pelos professores/educadores têm como elemento constitutivo concepções. inspirada em um único tipo de escola/sala de aula. na escola (Patto. Considerar uma intervenção junto a professores significa considerar a totalidade institucional e. lidar com o sofrimento daquele que não consegue aprender. 1990. refletir sobre a própria sociedade. assim como mostrar ao professor/a como se dá a aprendizagem do/a aluno/a. 2006). Urt. levar em conta as condições materiais inclui levar em consideração a existência A Psicologia pode contribuir com tal tarefa. muitas vezes. ou seja. 2009. de vez que os fatos não são excludentes. ao longo do processo. 2003. ações. Outra conclusão a que poderíamos chegar é que. que é levar o aluno a se apropriar do conhecimento científico produzido na humanidade. vemos que na educação infantil se repete a visão de que a função do psicólogo é medir habilidades e diagnosticar os alunos. Apesar de essa ciência ter legitimado a desigualdade social ao recorrer ao discurso das diferenças individuais. Vivenciam o processo de “patologização” das questões educacionais: o psicólogo é visto como um especialista em adaptação: do desvio à norma. muitas vezes. no caso aqui. uma vez que se tratou da primeira experiência de estágio supervisionado do curso de Psicologia em instituição de educação infantil. contribuindo para a mudança qualitativa do dia a dia das crianças. Todos nós fizemos descobertas que. Isso indica. 638-647 646 Maria de Fátima Evangelista Mendonça Lima educação infantil ainda enfrentam. a criança pequena. 2000). o projeto que chega na escola é um projeto de sociedade. ou seja. de material e organização do espaço físico. do que se espera da instituição escolar e do aluno. apesar das não recentes críticas a respeito da relação entre a Psicologia e a educação. com crianças de 0 a 6 anos de idade. De acordo com Facci (2008). Assim. ampliando outros e. Segundo Leão (2008). da fantasia à realidade. Contudo. classificando os indivíduos em mais aptos ou menos aptos. Enfim. que. 29 (3). nem sempre explicitadas. adquirindo novos conhecimentos. deve procurar entender como o professor/a está ensinando e como o aluno/a está aprendendo. da casa e do hospital. a necessidade de repensar a organização espacial comumente adotada entre nós. temos que considerar também a formação do professor/educador. qual a relação entre o desenvolvimento e a aprendizagem. tais como falta de material. é. já que se desenvolveu como ciência conforme a vida social foi exigindo esse tipo de saber e fazer (Bock. de pessoal e de espaço físico.

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